Lá à frente de “Serras das Almas“, numa montagem que embaralha presente e passado para justificar o seu porvir, ouve-se a frase: “Aonde a gente vai, a gente carrega fantasmas atrás da gente“. É o gatilho que evoca a lembrança de uma referência cinéfila do thriller áspero de Lírio Ferreira qual um espectro, qual um espírito brincalhão: Sam Peckinpah (1925 – 1984). Embora sem usar a câmara lenta que virou marca desse mestre do western, a produção pernambucana em concurso pelo troféu Redentor do Festival do Rio é “peckinpahniana” no recorte de um mundo desencantado, destituído de redenção, pautado por um duplo ethos: o da mesquinharia e o da derrota. No seu mais poético “Ride The High Country” (1962), o artesão americano da aspereza põe um de seus cowboys a dizer “Eu só quero entrar em minha casa com dignidade“, de modo a expressar que o mínimo é sobreviver, é chegar, é respirar. Uma dinâmica similar se passa com diferentes vértices da trama (bem) filmada por Lírio, a partir de um argumento de Maria Clara Escobar, Paulo Fontenelle e Audemir Leuzinger.
Existe uma ciranda de personagens no guião na qual cada um tem o seu momento de expressar a sua vontade de potência ou sua vulnerabilidade. A plateia pode embarcar no eixo que quiser nas trilhas da edição do montador André Sampaio, qual se via Sam Peckinpah de “The Wild Bunch” (1969) – ou mais recentemente em “No Country For Old Men” (2007), dos Coen, igualmente inspirado por Sam. No western outonal de Sam Peckinpah, do fim dos anos 1960, o público ora se agarrava à sanha da cobiça de William Holden, ora ao revanchismo de Robert Ryan, ora aos olhares trágicos de Ernest Bornigne para a vida. Em comum, todos esses batiam-se contra o mundo por um futuro “digno”. Na “Serra das Almas” de Lírio, ressecada na fotografia dionisíaca de Pedro von Krüger, esse senso do “digno” faz-se notar numa repórter idealista que persegue um escândalo (papel de Julia Stockler, em inspirado desempenho); num motoboy de passado nebuloso (Vertin Moura, o achado do elenco, numa atuação meticulosa); numa jovem cantora cansada de desilusões (Mari Oliveira); num político escroque (Bruno Garcia, numa interpretação que sintetiza o degredo moral do Brasil); e, em especial, num ladrão de tolerância mínima ao próximo (Ravel Andrade). É difícil olhar para essa figura criminosa, encarnada no limite do ressentimento por Ravel, sem pensar no Warren Oates de “Bring Me The Head Of Alfredo Garcia” (1974), um sujeito nada apolíneo, que quer garantir o seu sossego a despeito de quem tenha de derrubar para isso.

É a partir de um roubo de joias arquitetado pela ave de rapina vivida por Ravel que as distintas “almas penadas” do faroeste esturricado de Lírio colidem, abalroadas numa comédia de erros deflagrada por um roubo malfadado. Em idas e vindas no tempo, a longa-metragem mostra as muitas variáveis que norteiam esse assalto (de pedras preciosas), a respingar no senador corrupto encarnado por Garcia. Um clima de panela de pressão em fervura dá a tónica às trombadas entre os diferentes tipos envolvidos, até um ponto em que o caldo transborda, com a erupção do motoqueiro interpretado por Vertin (o mais luminoso coadjuvante da disputa pelo Redentor até aqui).
Responsável (junto com Paulo Caldas) pelo filme que redefiniu os rumos pernambucanos no cinema brasileiro dos anos 1990 (“Baile Perfumado“), Lírio recicla-se ao retomar os trilhos da ficção (no meio a uma recorrente produção documental) de olhos voltados para a marginalidade, assim como fez em “Árido Movie” (2005), e entrega um momento Peckinpah que faz lembrar “The Getway” (1972) na sua ferocidade. Uma vez mais, esbanja destreza na condução de um elenco de múltiplas proficiências. O olhar triste da jornalista vivida por Stockler, a fintar o Nordeste com um olhar de “Anjo da História“, de “Angelus Novus” (quadro de Paul Klee famoso pelo rosto ressaqueado de um querubim), sintetiza a sensação de desterro de um país carente de amparo.





















