Uma das comédias de sucesso deste ano em França foi Les Crevettes pailletées (Os Camarões Brilhantes), projeto que uniu na realização Maxime Govare, responsável por filmes como Há Sempre Uma Primeira Vez e Daddy Cool, e Cédric Le Gallo, antigo jornalista agora em estreia nas lides cinematográficas.
A dupla passou por Lisboa na Festa do Cinema Francês, e juntamente com o ator Albert Lenoir, falaram-nos da experiência em filmar este projeto que acompanha um nadador famoso que, após ser acusado de homofobia, é obrigado a trabalhar com uma equipa de polo aquático composta por gays que têm de se preparar para os “Jogos Gays” na Croácia.
O Cédric era jornalista antes de se transformar em realizador. O que o levou a mudar de ramo?
Em paralelo à minha carreira de jornalista, fiz teatro e sempre hesitei em ser ator. Sempre tive a vontade de contar histórias. Quando és jornalista, não é de todo uma profissão diferente à de argumentista/realizador. Em ambas as profissões, contas histórias.
No caso dos jornalistas, contas histórias verídicas. Mas quando escreves ficção também te inspiras no real. Fiz reportagens documentais e sempre quis experimentar a ficção. Fazia teatro, mas sempre amei o poder da imagem e por isso fiz uma pequena série para o Canal+ chamada Scènes de culte. Adorei fazê-la, mas era algo bastante curto e por isso decidi passar para as longas-metragens.
E porque escolheu a ficção e não os documentários?
Eu fiz documentários, mas de temas bem diferentes. E voltarei certamente a fazer pois é uma forma ainda mais louca de contar o real. É algo que sinto falta, de ir ao terreno e conhecer pessoas. Adorei fazê-lo durante 15 anos. Quando fazemos um documentário tentamos contar o melhor possível o que vemos nas pessoas. Quando fazes uma ficção a partir do real imprimes um estilo. Por isso, quando abordas questões de sexualidade de uma equipa de pólo aquático tudo se transforma em algo mais pessoal.
E como trabalhou o guião do Camarões Brilhantes a partir dessa história pessoal?
Comecei por escrever dezenas de páginas com a história. Depois conheci o produtor através do Maxime. Eu e o Maxime mudamos a história original, adicionamos muita ficção e até uma personagem que não existia na história original.
E foi difícil fazer um filme que não tivesse todos os estereótipos e clichês em torno dos homossexuais?
Nós queríamos jogar com os arquétipos, pois eles existiam na minha equipa de polo aquático. Numa associação desportiva homossexual temos de tudo, pessoas dos 20 aos 50, com personalidades muito ricas, coloridas e era importante trespassar isso para o guião. A minha realidade é uma onde fazemos espetáculos, onde fazemos coreografias como no filme, onde nos divertimos e brincamos muito. Por isso sim, existem os arquétipos.
A dificuldade era mantê-los e não os levar para os clichês. Nisso, foi muito graças aos atores que trouxeram para cada uma das personagens algo que as levaram para além desses arquétipos. É um pouco semelhante ao que fazemos na vida: divertimo-nos a nos autocaricaturar.
E esse trabalho com os atores, havia espaço para eles mudarem as coisas ou tinham de seguir o guião?
Cédric Le Gallo: Não houve muita improvisação
Alban Lenoir: Todos os sentimentos e a subtileza das personagens já estava injetada nos diálogos. Estes eram muito precisos e por tal quase não foi necessário mexer no texto. Os sentimentos que transmitimos estavam lá, no guião. É sempre difícil, mas não precisamos também muito tempo para entrarmos na personagem em determinada cena. Tudo estava detalhado no guião.
Cédric Le Gallo: Quando trabalhas com 9 personagens é quase impossível improvisar, até porque o Diretor de Fotografia diz o percurso as personagens e se há improvisação, as coisas falham.
Maxime Govare: Um guião é um esqueleto. A improvisação não existe, mas a encarnação é super importante. Um guião não é um filme, é um faz de conta, uma fonte teórica…
Então há espaço para os atores preencherem essas personagens?
Maxime Govare: Sem dúvida e é isso que é belo, porque quando escreves não tens um rosto para a personagem. Muitas vezes escrevemos uma cena, mas depois vemos um ator nessa personagem e percebemos outras coisas.
Que influências podemos detetar no filme. Há qualquer coisa do Pride e do Priscilla, a Rainha do Deserto?
Cédric Le Gallo: Sim, quando vi o Pride disse: “é isto que quero fazer”.
Maxime Govaire: Sim, efetivamente houve influência de filmes como o Pride, mas não nos inspiramos apenas em filmes de temática LGBT. Há influência de filmes de famílias disfuncionais, como o Little Miss Sunshine, pois seguimos um grupo de pessoas que estão juntas numa equipa, mas que não estão efetivamente juntas na vida. A ideia não era assim apenas buscar influências em material LGBT.
Foi difícil criar o filme depois do sucesso do Ou Nadas Ou Afundas, que também serve um grupo de pessoas que estão juntas numa equipa de natação sincronizada, mas não estão verdadeiramente juntos?
Maxime Govare: Ou Nadas Ou Afundas? Não conheço. (risos) Não sei do que fala (risos)… vocês sabem? (risos)
Cedric Le Gallo: Nós acabamos de escrever o filme quando descobrimos que o Ou Nadas ou Afundas ia ser feito. Tecnicamente, nós iamos filmar Os Camarões Brilhantes antes do Ou Nadas ou Afundas, mas por razões financeiras, pois o Canal+ financia também o Ou Nadas e Afundas, que era bem mais caro, eles adiaram as nossas filmagens. Se isso foi bom ou mau para o nosso filme? Nunca saberemos.
Maxime Govaire: É verdade que falaram isso antes do filme e que depois de o verem perceberam que ele era diferentes: a história e personagens. Mas também é verdade que alguns críticos, como um importante de uma publicação francesa [Paris Match], definiu o filme como uma mistura do Priscilla e do Ou Nadas Ou Afundas…
Eu li um artigo que dizia que o Camarões Brilhantes era Ou Nadas ou Afundas gay?
Maxime Govaire: Exato, mas isso é marketing. É o marketing a funcionar. O Ou Nadas ou Afundas foi um grande sucesso e aproveitaram isso…
Cedric Le Gallo: Muitos também o comparam ao Priscilla, pois é um filme de culto. Isso é bom, mas nós não ficamos apenas por aí. Há outras temáticas no Camarões Brilhantes e estamos noutra época para a comunidade gay.
Albain Lenoir: É uma coisa muito francesa essa necessidade de comparar a algo. Eu sou belga e lá não fazemos isso.
Nos EUA fazem também a mesma coisa, sempre que sai um filme tentam encontrar outro como âncora comparativa promocional
Albain Lenoir: Sim, é uma coisa quase essencial para a promoção de um filme encontrar uma referência…
Cédric Le Gallo: Eu sei que o presidente da Universal perguntou à Universal França a que é que o filme se assemelhava. A resposta foi que não se assemelhava a nada.
Maxime Govaire: Os distribuidores procuram sempre filmes comparativos….
E vamos ver uma continuação?
Maxime Govaire: Sim
E já têm a história?
Maxime Govaire: Sim, interrompemos a escrita por causa de vocês, para vir a Lisboa onde está este belo tempo. Hoje não trabalhamos no guião, mas estou a fazê-lo juntamente com o Cédric e com o nosso outro coargumentista [Romain Choay]. A ideia é filmar já no próximo ano, não sei quando.
E acha que este universo poderia gerar uma série, por exemplo?
Maxime Govaire: Sim, nas verdade há o Universo MCU (Marvel) e o Universo Camarões Brilhantes (risos). A Netflix vai fazer uma série e um filme para IMAX (risos)…
Cédric Le Gallo: Agora a sério, nós pensamos nisso. Inicialmente pensamos em fazer uma série sobre a juventude deles, e depois, anos depois, continuar o filme, com eles mais velhos. Mas as coisas vão se desenrolar diferentemente, ou seja, de forma inversa. Vamos já para uma continuação, até porque ainda temos algo a dizer sobre estes homens. Há valores ainda por defender…
Maxime Govaire: O combate continua (risos)…
Cédric Le Gallo: São muitas personagens e não prestamos atenção a todas da mesma maneira. Há problemas ainda a falar e como são muitos ainda temos muito a dizer. E divertimo-nos a poder contar essas histórias.
Uma última questão, as cenas de polo aquático e na piscina foram dificéis de filmar? Exigiu muito de vocês fisicamente?
Albert Lenoir: Foi muito duro. Não sou a melhor pessoa para falar disso, pois fui o que menos participou nessas cenas, mas todos eles me disseram que foi muito difícil filma-las. Acho que nenhum dos atores vai voltar a fazer polo aquático depois do filme (risos). Foi muito dificil para eles e também para os jogadores reais…
Maxime Govaire: Era terrível, eles tinham aparelhos nos ouvidos para comunicarmos e a comunicação era muito complicada.
Albert Lenoir: Sim, a comunicação era difícil.
Cédric Le Gallo: Nós fizemos a nós mesmos uma questão sobre isso antes de filmar. Vamos deixa-los jogar polo aquático ou coreografamos tudo? O problema na coreografia é que se sai errado, tinhamos de começar do início, por isso misturamos as duas coisas. Creio que as melhores cenas, na verdade, são aquelas em que eles estão mesmo a jogar. Houve momentos em que dissemos: joguem e tentem marcar golos. E houve outros momentos que coreografamos, para podermos dar atenção a todas as personagens no jogo.

