Quando a Moldávia se tornou independente, em agosto de 1991, 37% da população teve de migrar. A declaração de independência ocorreu após a dissolução da União Soviética (URSS), à qual a República Socialista Soviética da Moldávia pertencia na altura. A situação económica do país após a sua independência sofreu um colapso rigoroso, resultando na queda acentuada do padrão de vida e da produção económica. A Moldávia passou por uma profunda crise socioeconómica durante a década de 1990: era uma república soviética relativamente próspera, focada na agricultura e na tecnologia, tornando-se o país mais pobre da Europa. Foram muitas as pessoas constritas a migrar para sustentar os filhos e as famílias; algumas partiram sozinhas em busca de recursos para enviar aos entes que ficaram na Moldávia.
Love Is Not an Orange (2022), de Otília Babara, é um comovente documentário que retrata este fenómeno, com foco em histórias de mulheres moldavas que, nos anos 90, foram obrigadas a partir para outros países europeus, em especial para Itália, perante a falta de condições na terra natal.
Durante o exílio, tentando manter os laços familiares à distância, as mulheres recebiam notícias de casa, comunicando com os filhos e os maridos através do registo quotidiano de imagens em vídeos caseiros (de baixa qualidade), enviados por correio. Em contrapartida, remetiam aos familiares caixas repletas de bens diversos, desde presentes e alimentos até ao dinheiro que ganhavam em subempregos na Europa Ocidental. Estas trocas serviam para mitigar a culpa do abandono materno forçado, mas também como prova de um certo “sucesso” da migração e do apreço das mães pelos filhos. Mulheres que trabalhavam de forma ilegal e precária. Distantes de casa e sem afetos, viviam solitárias. No filme, não nos é dado a saber as suas profissões, mas é mencionado que realizavam trabalhos desprezíveis nos países onde procuravam sobreviver e sustentar financeiramente os familiares.
Love Is Not an Orange é uma narrativa construída inteiramente na montagem, com imagens de rituais quotidianos gravados pelos filhos e maridos das mulheres migrantes entre os anos 1990 e 2000; há também algumas imagens delas antes de migrarem. Os registos imagéticos íntimos acabam por revelar o amor dos filhos pelas mães, expresso de forma simultaneamente bem-humorada e trágica, e a dor de uma maternidade forçadamente e fisicamente ausente. As mulheres acompanham o crescimento dos filhos através de cassetes de vídeo. Não há propriamente algo que substitua a presença dos afetos: há sentimentos e emoções que só são possíveis de viver estando perto, em carne e osso.
Neste filme, não é a estética nem a falta de qualidade das imagens que importa, mas sim os registos que documentam a realidade de uma época e a condição social e afetiva das pessoas envolvidas.
Há uma cena marcante em que vemos um grupo de crianças a cantar uma canção que revela a saudade que sentem das suas mães, até que uma das meninas começa a chorar. E, quase no final do filme, surgem vídeos de casas em construção, financiadas pelos salários do trabalho das mães no estrangeiro — dinheiro ganho com enorme esforço e solidão.
A resposta das mães aos vídeos enviados pelas famílias surge através de uma narradora na primeira pessoa do plural, que representa todas as mulheres. Em nenhum momento vemos os rostos das mães. Sente-se a ausência dessas imagens. Não é claro se foi uma opção da realizadora ou se simplesmente não existiam registos feitos por elas próprias. Ainda assim, vemos no filme imagens das cidades estrangeiras onde viveram durante mais de uma década. Algumas migrantes não conseguiram regressar aos seus lares: demoraram muito tempo a regularizar a sua situação legal e, quando obtiveram documentos, já não podiam voltar — umas porque perderam os vínculos, outras por receio de perder o trabalho, embora precário.
À medida que os anos passam, a comunicação entre as mulheres e as famílias vai perdendo força afetiva, e as crianças perdem a esperança quando percebem que algumas das mães não irão regressar. Torna-se evidente que a relação deixa de existir no plano emocional, devido à prolongada distância física.
Com o filme, a realizadora cria um espaço seguro para que estas mulheres lidem com os traumas da separação, revelando feridas guardadas durante décadas. Um filme que traduz uma experiência coletiva de migração feminina e de uma geração de crianças de um país que conquistou a independência, mas perdeu as suas mães.
Fica a questão: porque não foram os maridos a migrar? Porque recaiu sobre as mulheres essa responsabilidade?
O título Love Is Not an Orange reforça a ideia de que bens materiais — ou alimentos — não substituem a presença física e emocional. Um filme que expõe o impacto doloroso da migração nas famílias moldavas, revelando a fragilidade dos laços afetivos quando a separação se torna uma condição de sobrevivência.
Otília Babara é uma realizadora moldava baseada em Bruxelas. Frequentou o mestrado DocNomads (Bélgica, Hungria, Portugal) e recebeu uma bolsa da Berlinale Talents em 2013. Love Is Not an Orange é a sua primeira longa-metragem e estreou mundialmente no DOK Leipzig, em 2022. Foi exibido no Visions du Réel e em vários outros festivais. O filme recebeu o Prémio Silver Eye de Melhor Documentário da Europa Central e de Leste, o Prémio CEI no Festival de Cinema de Trieste e o Prémio de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Tirana, entre outros.
Se sentires vontade de o ver, atente as plataformas de streaming ou festivais de cinema. Vale muito a pena!





















