Embora os meios, estética e forma de “Green Line” (referência a uma divisão imaginária que separava facções) seja bastante diferente de “The Act of Killing”, é difícil não nos lembrarmos do filme Joshua Oppenheimer quando falamos deste projeto de Sylvie Ballyot sobre a Guerra Civil do Líbano

Utilizando figuras e modelos em miniatura, e coescrito com a ajuda de Fida Bizri, Ballyot tenta reconstruir a turbulenta educação de Bizri durante a Guerra Civil Libanesa, confrontando ex-milicianos que atuaram nos anos 80 em Beirute Ocidental, muitos dos quais que diziam protegê-la, mas que, na realidade, a assustavam.

Manifesto anti-bélico claro, os ex-milicianos- sejam cristãos ou de diversas facções muçulmanas – falam do seu passado militar, explicando motivações. Já Bizri vai frequentemente confrontá-los com as incongruências da guerra e o próprio “ato de matar”, tentando mostrar o que os efeitos de uma guerra têm nos olhos das crianças. Nestes guerrilheiros, onde também encontramos mulheres, existem, naturalmente, figuras sinistras, muitas arrependidas, mas a maioria delas a continuar a defender a sua perspetiva, que assumem não ser uma verdade universal, mas a sua.

Apesar da sua longa duração, cerca de 2h30, a urgência do filme, a diversidade de opiniões e testemunhos, e a consequente reflexão sobre guerra, religião e política levam-nos numa caminhada tempestuosa pela história do Líbano e o conflito, que na verdade ainda continua, com Palestina e Israel ao barulho, mas também facções, como o Hezbollah, com ligações claras ao Irão. 

Existe dor e remorso em muitos dos testemunhos, mas existe igualmente o fervor ideológico, o nacionalismo e um sentido de “obediência” (tão bem explorado por Stanley Milgram no seu “Obediência à autoridade”) nos discursos destes homens e mulheres que combateram na guerra, tendo alguns transitado, entretanto, para grupos anti-bélicos que mostram que o que aconteceu no passado não pode voltar a acontecer no futuro.

Os massacres de Karantina, Damour Tel al-Zaatar e Sabra and Shatila, entre outros, são mencionados e debatidos perante os milicianos, bem como o ataque ao porto de Beirute que dizimou centenas de muçulmanos, e um ataque a um autocarro, que muitos dizem ter sido o ponto nevrálgico para o início da guerra.

Embora extremamente simples na concretização, até porque as condições financeiras não permitiam para mais (a ideia original era uma ficção sobre o tema), “Green Line” é uma peça documental bem desenvolvida e que tem muito para acrescentar em relação à guerra, não apenas a do Líbano. E como uma das entrevistadas diz a certo momento, o que falta ao país é o que felizmente aconteceu no pós guerra da Jugoslávia: a responsabilização dos criminosos de guerra e “algum descanso” para as vítimas.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ofoe
Pontuação Geral
Jorge Pereira
green-line-libano-e-o-ato-de-matar“Green Line” é uma peça documental bem desenvolvida e que tem muito para acrescentar em relação à guerra, não apenas a do Líbano.