Pouco depois de chegar em França, em 1980, e estudar marcenaria, o cambojano Rithy Pahn deixou de lado a meta de se tornar carpinteiro e optou por estudar no Institut Des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC) com o objetivo de fazer da memória do seu povo, em tempos de opressão, matéria revolucionária no terreno da estética. Procurou soluções na cinefilia, a partir de Godard, para talhar uma obra memorialística, iniciada em 1989, com Site 2 – Aux Abords Des Frontières. “Quem ia querer ouvir um estrangeiro falar de estratégias de sobrevivência na Europa dos anos 1980? Foi nesse momento que a filmografia de Alain Resnais e de Souleymane Cissé me deu um modo de expressão a partir de histórias construídas numa margem oposta ao imediatismo do cinema comercial”, disse o realizador ao C7nema, na Berlinale de 2020, antes de conquistar a láurea de Melhor Documentário com Irradiés. É nas veredas da Não Ficção que ele (mais e) melhor angariou prestígio, sempre próximo da ensaística, com direito a uma nomeação ao Oscar dada a A Imagem Que Falta (Prix Un Certain Regard de Cannes em 2013). Encarada como a sua obra-prima, aquela longa-metragem dialogava com as artes plásticas ao usar bonecos de argila como objetos (leia-se “personagens”) da reconstituição do jugo ditatorial dos Khmer Vermelhos, o Partido Comunista do Camboja, nos anos 1970. Pol Pot (1925-1998) era o líder. O uso dessas estatuetas, e de imagens de arquivo, imprime de autoralidade o seu filme mais recente, Rendez-vous Avec Pol Pot.

Chamado de Encontro Com o Ditador, no Brasil, e “Encontro com Pol Pot“, em Portugal, onde estreou a 3 de janeiro, a produção é uma experiência ficcional do cineasta. Pahn já havia se arriscado na ficção antes com Un Soir Après La Guerre (1998), atento à dor que Pol Pot causou nos conterrâneos. Volta a falar dele agora com um thriller feito sob a ótica do jornalismo, exibido na seção Première do Festival de Cannes de 2024. A dramaturgia inspira-se no livro “When the War Was Over: Cambodia and the Khmer Rouge Revolution”, de Elizabeth Becker, a fim de criar imagens impactantes, como a de um aquário de jacarés. O viveiro desses animais serve de metáfora para um uso nada empático do projeto comunista.

Para expor essa falta de empatia, Pahn conta com um elenco principal inspirado nessa aventura de reconstituição de época, estrelada por Irène Jacob, Grégoire Colin e um inflamável Cyril Gueï. Os três têm atuações convulsivas.

Eles interpretam, respetivamente, os repórteres Lise Delbo, Alain Cariou e Paul Thomas. Em 1978, o trio viaja ao Kampuchea Democrático (atual Camboja), sob convite oficial do Khmer, a fim de conduzir uma conversação exclusiva com Pol Pot. Os anfitriões fazem parecer que tudo está em ordem e que a Revolução Socialista, sob a égide leninista de 1917, transformou-se numa realidade (à perfeição). É difícil para os agentes daquele estado, contudo, encobrir o facto de que o regime do local está em declínio, abalado por uma guerra contra o Vietname, ameaçado de invasão.

Múltiplas vezes, Pahn opta pelo uso do estatuário de barro para contar o que a equipa de reportagem francesa encontra na sua expedição por terras cambojanas. Os bonecos têm as feições do elenco, que, por vezes, interage com cenas documentais, numa mistura plástica que amplia a força sinestésica do olhar de Pahn. É pena que a montagem delineada pelo próprio cineasta e por Matthieu Laclau peque na falta de subtileza e na falta de acabamento, o que incorre em soluções bruscas, por vezes obtusas. Apesar disso, a fita vai além do valor de documento de época, sobretudo pelo modo implosivo de Irène atuar e pela elegante fotografia de Aymerick Pilarski.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
rendez-vous-avec-pol-pot-lembrar-e-um-ato-revolucionarioMúltiplas vezes, Pahn opta pelo uso do estatuário de barro para contar o que a equipa de reportagem francesa encontra na sua expedição por terras cambojanas. Os bonecos têm as feições do elenco, que, por vezes, interage com cenas documentais, numa mistura plástica que amplia a força sinestésica do olhar de Pahn.