Filiado a uma tradição inglesa da love story empacada por impasses da moral e da História, numa genealogia que vai de David Lean a James Ivory, “The History of Sound” é o mais ortodoxo dos 18 concorrentes à Palma de Ouro de 2025 exibidos até esta data (dia 22 de maio), quando faltam quatro fitas para fechar o certame. Não lhe ocorre ousadia em parte alguma das suas 2h07, mas sobra refinamento e retidão. A fadiga inicial que se impõe pela repetitiva entrega dos protagonistas – dois estudiosos de música – a uma mesma canção, cai por terra no ponto em que um estudo aprofundado da psique de uma personagem se apresenta, firma-se, e fica até o fim, avançando dos anos 1920 até 1980. Chris Cooper, ator luminoso, dá uma ajuda e tanto no eixo final, ao dividir a mesma figura com um Paul Mescal inspirado.

Ele conta com a minuciosa condução do sul-africano Oliver Hermanus (“Moffie”), que usa conhecimentos barthesianos da fotografia, da imagem still, para urdir joias como o drama de época “Living” (“Viver“), que valeu a nomeação ao Oscar para Bill Nighy, em 2023. A semiologia praticada por Roland Barthes diz que a foto é o templo do “foi aí”, ou seja, ela não é capaz de presentificar memórias – qual o cinema consegue – por não ter movimento.

Em respeito a esse paradigma, Hermanus enquadra o benquerer como um norte intangível, como um reflexo do que passou, marcou, mas não pode ser reatado, nem na mais proustiana das buscas. Essa visão encontra eco no conto “A History of Sound“, de Ben Shattuck, que assina o guião da versão para os ecrãs da sua própria prosa.

Nela, as teclas de um piano são o ímã com que David (Josh O’Connor) magnetiza Lionel (Mescal) ao esbarrar com ele, em 1917, no Conservatório de Musica de Boston, ao fim da I Guerra Mundial. A paixão é instantânea, cevada pelo ardor de ambos pela triagem do cancioneiro popular e por um tesão imparável. Um é filho do Velho Mundo. O outro é americano e da zona rural. As origens distintas geram choque. A pobreza, também. Essas contradições levam os dois a um distanciamento (de corpos, nunca de almas) e a narrativa (austera do início ao fim) guia-se por Lionel.

Ele é a linha mais harmónica, de hábitos ordeiros, diferente da verve indómita de David. Vemos o seu caminha até à velhice, quando Mescal dá lugar a Cooper. Até lá perfuma-se a memória com cheiros de “O Segredo de Brokeback Mountain” (Leão de Ouro de 2005). Há semelhanças plenas entre eles e uma separação fulcral: o filme de culto de Ang Lee agoniava-se (com razão) pela homofobia. O tema em “The History of Sound” limita-se a uma conversa. O que interessa a Hermanus é o instante das relações no qual um vacilar faz um castelo desabar, ainda que os alicerces fiquem. Fica também, nas retinas da plateia, a lembrança da fina direção de fotografia de Alexander Dynan.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
foi-ai-um-amor-em-a-history-of-soundFiliado a uma tradição inglesa da love story empacada por impasses da moral e da História, numa genealogia que vai de David Lean a James Ivory, "The History of Sound" é o mais ortodoxo dos 18 concorrentes à Palma de Ouro de 2025