Se há coisa que já percebemos no modus operandi dos cineastas franceses Fanny Liatard e Jérémy Trouilh é a sua apetência por apostar em filmes moldados sobre os alicerces do realismo social, que invariavelmente irrompem pelo terreno do fantástico e da poesia visual.

Assim era na curta-metragem Chien bleu, onde seguíamos um homem com medo do mundo, que deixou de sair de casa e começou a pintar tudo de azul, e assim foi com Gagarine, a sua primeira longa-metragem, inspirada numa curta que assinaram anos antes, onde a ameaça de demolição de um bairro leva um adolescente, Youri, a percecioná-lo como se fosse uma estação espacial.

Na sua nova longa-metragem, Les yeux verts (The Green Eyes), a dupla volta a ensaiar uma incursão entre o real e o imaginário, tendo como terreno o caso de uma família de refugiados à procura de asilo e um adolescente que atravessa o que se designa como síndrome da resignação, uma condição rara associada sobretudo a crianças e jovens requerentes de asilo (particularmente na Suécia), marcada por um progressivo estado de retraimento que pode culminar em sintomas semelhantes ao coma ou estado catatónico. 

Les yeux verts acompanha Chaya, uma menina iraquiana de 11 anos que vive com o irmão mais velho, Nour, e o pai no sudoeste de França, três anos depois de a família ter fugido do Iraque e perdido a mãe na viagem. Quando recebem a notícia de que o pedido de asilo foi recusado e que poderão ser obrigados a regressar ao país, o pai parte para Espanha na tentativa de arranjar dinheiro para levar os filhos para Inglaterra, deixando-os para trás. É então que o rapaz entra num estado associado à síndrome de resignação e Chaya, convencida de que o irmão se encontra “escondido nos sonhos”, tenta procurá-lo, transformando uma crise familiar concreta numa aventura fantástica vista pelos olhos de uma criança. 

Ainda que conceptualmente sedutor e de inquestionável deslumbre estético, Les yeux vert está longe de alcançar a mesma eficácia de Gagarine, ou até mesmo a delicadeza de Petite Maman, de Céline Sciamma, filme que tantas vezes nos veio à cabeça perante a pequena Chaya e a forma como o seu olhar infantil serve de passagem entre o concreto e o imaginário, transformando em imagens uma dor tão intensa e povoada por fantasmas que, no mundo real, deixa o irmão mergulhado num estado de completa imobilidade. 

É precisamente nessa transposição visual do trauma que o filme encontra algumas das suas imagens mais fortes, embora nem sempre lhes consiga dar solidez dramática e acabe por se perder em simbolismos excessivamente calculados e artificiais, enquanto a vertente de realismo social raramente escapa aos lugares-comuns e pouco consegue fazer para dar verdadeira espessura às personagens-satélite do drama familiar. Exemplo disso é a personagem da professora, interpretada por Anamaria Vartolomei, que acaba por surgir mais como uma função narrativa do que como uma figura verdadeiramente desenvolvida.

Ainda assim, Douae Butarbuch M’Zaouki, a jovem atriz, impõe-se pela convicção da sua interpretação, e existe algum arrojo na tentativa de revisitar uma temática complexa, já amplamente explorada pelo cinema nos últimos anos, através de uma dimensão fantasista que procura afastar o filme dos códigos mais previsíveis do drama social. Mas nada disso é suficiente para elevar a obra acima de qualquer um dos exemplos anteriormente citados, perante os quais Les yeux verts acaba por parecer uma variação menos conseguida de ideias e de dispositivos.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
les-yeux-verts-entre-o-trauma-e-a-fantasia-nem-tudo-ganha-vidaÉ precisamente nessa transposição visual do trauma que o filme encontra algumas das suas imagens mais fortes, embora nem sempre lhes consiga dar solidez dramática e acabe por se perder em simbolismos excessivamente calculados e artificiais