Nas cinzas financeiras da América pós crack da Bolsa de Valores, em 1929, a Universal buscou no horror o cimento para edificar um império industrial, baseada numa linha temática pautada pela metáfora do monstro. A empresa partiu da percepção de que a sequela moral simbólica da incerteza económica daquele tempo é a paranoia, expressa pela dualidade de caráter (Dr. Jekyll e Mr. Hyde numa só psique) e pela construção de monstruosidades como signos da diferença. Sob essa sensação de perigo, a partir da qual o estúdio (simbolizado pelo globo terrestre) estruturou a sua fortuna, o conde Drácula de Bela Lugosi, o Frankenstein de Boris Karloff com a sua Noiva sem véu (Elsa Lanchester) e a Criatura da Lagoa Negra de Ben Chapman materializaram a insegurança das plateias das décadas de 1930 e 40. Com a II Guerra Mundial, a incerteza ganhou uma farda nazi, mudando as regras desse xadrez semiótico, mas um legado cinematográfico de fantasia celebrizou-se ali, como pilar de um género calcado num tipo de desamparo que nem a fé nem os ansiolíticos atenuam. Os novos tempos, numa autocrítica de comportamentos outrora normatizados, apontaram novos vilões, dando ao sexismo uma centralidade sob os holofotes culturais do que precisa mudar no século XXI. O sexista é o ferrabrás perfeito para o ensejo de reciclagem do projeto editorial de uma das mais sedimentadas marcas de Hollywood, que encontrou na produtora Blumhouse a parceira perfeita. O toque de Midas de Jason Blum, é assegurar precisão a projetos de orçamentos diminutos. Só o que precisa é um realizador com verve autoral e protagonistas com inquietude dramática. Tudo isso veio numa bandeja com o cineasta Leigh Whannell, a (ótima) atriz Julia Garner e o ator Christopher Abbott. A partir de um cheque de US$ 25 milhões, nasceu Wolf Man”.

Com o tal cheque, a Universal ganhou uma injeção de ânimo em tempos nos quais o Nosferatu, de Robert Eggers, chega ao circuito com invenção. São filmes que renovam o terror, com autoralidade. Whannell, um ator australiano que filma e escreve, foi parceiro de um outro artesão dos sustos, James Wan, na escrita do argumento de Saw (“Jogos Mortais”), há 21 anos. Fez fortuna à base de dinâmica de corpos despedaçados em decorrência de pecados que a sociedade tolera (até certo ponto), mas não perdoa. Tratou do mesmo tema quando resolveu realizar os seus próprios filmes, a partir de Insidious: Chapter 3, em 2015, num flirt com o Além.
A maleabilidade com que atomiza as convicções moralistas e exercita as dinâmicas dos sustos levou-o a assumir uma releitura de O Homem Invisível (1933), de James Whale. O projeto era parte do desejo da Universal em retomar os seus pilares. Uma tentativa em escala industrial foi tentada com Tom Cruise no sofrível A Múmia (2017), de Alex Kurtzman, que naufragou na sua plural incompetência dramatúrgica. Aquele desastre fez de Blum (com a sua aritmética barata, calcada no paradoxo entre custos baixíssimos e abundância de ideias) a escolha ideal para reinventar os monstros lá da década de 1930.
             
Sob os auspícios da Blumhouse, Whannell assumiu o The Invisible Mande 2020 com US$ 7 milhões para gastar e Elisabeth Moss (estrela da série The Handmaid’s Tale) para lhe dar excelência. Faturou US$ 144 milhões. Só não fez mais nas bilheteiras porque a pandemia atropelou a fita, cuja principal sacada era usar um marido abusador como foco da maldade.

Do repertório vasto da Universal, no torvelinho das adaptações dos seus sucessos de outrora, Whannell escolheu The Wolf Man, de 1941, famoso pelo desempenho de Lon Chaney Jr. no papel do licantropo que surge da lua cheia. A diferença do filme (filmado por George Waggner) para os demais títulos do bestiário do estúdio é o exercício de uma poética ecológica ao lado de uma melancolia ultrarromântica (esta também notada no Drácula, de Tod Browning e Karl Freund). As presas sanguinárias da besta vivida por Chaney são consequências de uma doença, uma hidrofobia mística, uma moléstia natual. O termo werewolf, comum à representação dos lobisomens na ficção (e no folclore) foi descartado do título. A ideia do wolf man (o homem-lobo) era uma forma de acentuar a humanidade daquela triste figura.

Tristeza também é o eixo do filme angustiante que Whannell oferece ao cinema agora, ainda que sem a mesma destreza técnica do thriller que rodou com Moss, prejudicado por uma direção de fotografia (assinada por Stefan Duscio) demasiadamente saturada. O que há nele de mais triste é o fracasso afetivo na relação entre os protagonistas, Charlotte e Blake Lovell. O casal distanciou-se pelo excesso de concentração dela no trabalho como jornalista, galvanizado por uma frieza estruturante, e pela dificuldade dele em controlar o temperamento. A filha ainda miúda, Ginger (Matilda Firth), é tudo o que aproxima o casal. Quando o agressivo pai de Blake morre, numa floresta do Oregon, ele propõe à sua companheira leva-la à casa onde cresceu, para tratar da herança. A viagem se materializa na calmaria, até um ser insólito, de padrões lupinos (físicos e comportamentais), cruzar o caminho daquela família. As suas garras são afiadas.


No primeiro ataque, Blake é infectado. Essa infecção é explorada por Whannell de um modo originalíssimo, sob uma ótica animal, que rompe com a linguagem racional. Nenhum dos códigos que servem de esperanto aos filmes de lobisomem (a luz do luar, as balas de prata, uivos) são destacados no argumento escrito por Corbett Tuck e pelo cineasta. Nem mesmo a maquilhagem (atribuída a artistas de prótese e caracterização como Arjen Tuiten e Pamela Goldammer) se orienta por padrões do lobo convencionais – o que gera um monstro disforme, difícil de ser classificado. Essa originalidade na proposta da realização causa desconforto, o que é uma recompensa para a plateia.

Mais recompensador ainda é o olhar vítreo de Julia Garner. Existem sequências tensas na montagem de Wolf Man, mas nada é mais enervante do que a mirada gélida da sua estrela, na tradução precisa de uma figura feminina que se embruteceu sob os vetores de desumanidade do mundo.

Há uma sutileza no título original do filme que aciona o gatilho dessa falta de empatia e se expressa na ausência do artigo “the”. Não é “O” lobisomem. Não há uma distinção de Blake para os demais indivíduos, masculinos ou não. O lobo do humano mora em todos, sem exceção. É parte de uma essência que o processo civilizatório se orgulha de ter freado. Ou quase.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
lobisomem-uiva-para-a-criatividadeHá uma sutileza no título original do filme que aciona o gatilho dessa falta de empatia e se expressa na ausência do artigo “the”. Não é “O” lobisomem. Não há uma distinção de Blake para os demais indivíduos, masculinos ou não. O lobo do humano mora em todos, sem exceção.