Existe uma piada que circula na internet que diz que o filho de Cillian Murphy é mais parecido com o Cillian Murphy do que o próprio. Essa piada pode ser aplicada a The Last Bus, pois o filme de Paul Greengrass é mais parecido com o cinema de Jan de Bont do que com do próprio Greengrass.
Twister (o original) e Speed — ambos de De Bont — são filmes-chave para falar de The Lost Bus, traduzido por cá como O Último Autocarro: um filme-catástrofe que tenta ser espetacular e procura ser profundo, mas a única coisa que oferece é um ensaio pastiche sobre heroísmo, sob o ritmo de um martelo-pneumático de manipulação emocional.
O ponto de partida para o filme é um gigantesco incêndio na Califórnia, na região de Los Angeles — especificamente o Camp Fire* de 2018 (assim nomeado porque começou em Camp Creek Road) — que destruiu a cidade de Paradise. É aí que o motorista escolar Frank Mayfield, interpretado por Matthew McConaughey, o “herói relutante” claramente inspirado em Kevin McKay, um motorista real cuja história foi relatada em detalhe pela imprensa e depois no livro Paradise: One Town’s Struggle to Survive an American Wildfire (Lizzie Johnson, 2021), aceita ir buscar 22 crianças e uma professora a uma escola primária ameaçada pelas chamas, iniciando um percurso complexo por estradas rodeadas de fogo, repletas de carros presos no trânsito e o mais puro caos.

A construção da personagem de Frank — a sua bagagem pessoal e emocional — é tratada de forma funcional e quase convencional, rebaixando-o ao máximo através de conflitos com o filho, com a esposa e com a entidade patronal, para mais tarde transformar o típico loser num herói improvável, mas imenso — ao alcance de qualquer um. Porém, para isso, este homem comum tem de deixar a sua relutância em intervir, sacrificar-se (neste caso, as suas relações familiares) e aceitar a missão altruísta de salvamento.
Extremamente expositivo na construção das personagens, através de diálogos que, longe de nos darem pistas, impõem-nos um olhar sobre as suas vidas e sobre como as devemoss ver, o filme cria mais um daqueles arcos típicos das histórias de underdogs à americana.
Perante tal construção, Frank — na sua forma de broken man — só se solidifica minimamente pela presença de McConaughey que, em vez do anti-herói transformado que vimos, por exemplo, em Dallas Buyers Club, é aqui apresentado como herói “natural”.
Ele não está sozinho na demanda de chegar a bom porto com as 22 crianças que leva a bordo do autocarro. Com ele está uma professora (America Ferrera), que o auxilia pelo caminho, não apenas como contraponto psicológico e apoio emocional na tomada de decisões, mas também na praticidade de acalmar as crianças e procurar recursos de sobrevivência (como água) em espaços prestes a serem consumidos pelas chamas e já vítimas de pilhagens.

Greengrass, realizador com apetência para ficcionalizar eventos históricos trágicos — Bloody Sunday, onde reconstrói o massacre de 1972 em Derry, na Irlanda; Voo 93, onde revisita o voo sequestrado de 11 de setembro e o transforma num microcosmo que vai do medo à coragem coletiva; e 22 de Julho, onde retrata os atentados de 2011, na Noruega — faz de The Lost Bus um playground com mais tiques do cinema-catástrofe dos anos 90 do que dos seus próprios filmes, ainda que algumas das suas marcas estéticas se mantenham.
Retratar a urgência do salvamento e o imediatismo da tragédia eram os guias essenciais de Greengrass para produzir um espetáculo de destruição imensa, com fogo e vento como irmãos diabólicos que aproveitam o descuido de uma companhia elétrica para iniciar e propagar um incêndio que, no final das contas, matou 85 pessoas e dizimou milhares de hectares de floresta.
Apesar de alguns planos abertos que simulam a propagação aérea e terrestre do incêndio, a maior parte das cenas é filmada a partir do interior do autocarro, com o fogo visto de fora, subjetivando o caos. Aqui, e sendo Greengrass em modo De Bont — mas ainda assim Greengrass —, a típica câmara sempre em movimento e em cima das personagens (ainda que sem chegar a nausear) procura sentar o espectador junto dos passageiros confinados. A busca por uma claustrofobia inerente — de um espaço onde se sente a pouca visibilidade, as temperaturas altas e a imersão em gases nocivos — ajuda a transmitir o sentido de desorientação, enquanto a montagem sonora, com o crepitar do vento que transporta o fogo, os estalidos, alarmes, respiração e ruídos metálicos, acrescenta densidade sensorial e transporta-nos para a vertigem da tragédia.
Tudo isto é, porém, inútil, quando a cápsula em que esta enxurrada de visuais se embrulha está terrivelmente formatada à previsibilidade e à manipulação emocional lacrimosa — que a banda sonora não se escusa de acentuar.
O resultado final é um filme-catástrofe à moda antiga, ancorado em emoções fáceis — mais impostas do que emergentes — e em personagens estereotipadas, que se apoiam em formas arcaicas de encenar o heroísmo, sempre entendido como gesto individual e redentor, segundo a cartilha clássica do “homem comum que se descobre extraordinário”. Ou seja, o que temos é um Greengrass que filma o fogo com perícia, mas acaba por se apagar no arranjo emocional de um drama calculado para arrancar lágrimas.
*o filme Rebuilding, estreado este ano, aborda o pós incendio para muito dos desalojados

















