Estonteante nos efeitos visuais e nos enquadramentos (nada óbvios) da paisagem silvestre em seu entorno, “O Reino do Planeta dos Macacos” (“The Kingdom of The Planet of The Apes”) é um derivado comercialmente muito bem-vindo do romance escrito por Pierre Boulle, em 1963, sobre uma distopia símia. Em 1968, Franklin J. Schaffner ficou de prosa com a saga sobre um futuro apocalítico no qual raças simiescas dominaram a Terra, relegando os humanos para um segundo e dispensável plano. O guião era de Michael Wilson e Rod Serling, que celebrizaram como “sequência icónica” (ou set piece como se diz em teoria dramática) a imagem da Estátua da Liberdade tombada e enterrada. Continuações e uma série nasceram do sucesso de 68, que ganhou uma injustiçada refilmagem de Tim Burton, em 2001. Dez anos depois, a 20th Century Fox resolveu regressar aos escritos de Boulle e se inspirar nele para uma franquia que gerou épicos regados a tensão. O título mais recente, orçado em 160 milhões de dólares, é o mais requintado no uso de motion capture (técnica de captura de movimento dos atores, usada para criar imagens digitais realistas, como a dos chimpanzés e gorilas guerreiros) e no debate ecológico.
Poucos títulos recentes conseguiram abrir uma discussão sobre o meio ambiente com contundência similar à que Wes Ball (realizador conhecido pela trilogia “Maze Runner”) aplica neste estudo sobre a intolerância. A trama de “O Reino…” se ambienta cerca de 300 anos depois do enredo da longa-metragem que fez o reboot da franquia “A Origem” (2011). Caesar, o macaco que adquiria o dom de reproduzir a linguagem humana e despertava um levante entre a sua espécie, já se foi faz muito tempo. Apesar disso, ele virou uma lenda.
O mundo que ele deixou é uma salva gigante, espalhada por espaços outrora urbanizados. Os símios se dividiram em tribos. A do chimpanzé Noa é das mais pacíficas e usa a tradição da falcoaria para se defender e para conseguir alimentos. As aves são aliadas do rapaz, que vai entrar um processo de maturidade. Mas criaturas violentas de uma tribo rival invadem o seu povoado, desrespeitando a lei de que “macacos não matam macacos”.
No guião filmado por Ball, Noa desprende-se dos seus invasores, foge e esbarra com uma série de figuras, símias ou humanas, como é o caso de Mae (Freya Allan), uma jovem com um nível de inteligência muito acima da sua raça. Ela sabe que existe um livro capaz de reeducar a sua espécie e fazer com que mulheres e homens, cis ou trans, reaprendam o alfabeto. Ela vai se aliar a Noa para isso, enfrento a figura do assustador rei Proximus (Kevin Durand), um autoproclamado monarca que se considera o senhor da sua aldeia e um conquistador nato.
Proximus é a medida da decadência de uma sociedade sem balanço, que se corrompeu após a Terra ter entrado num ciclo de reinvenção. Ball faz dele uma figura aterradora que sintetiza o lado mais vil do que Nietzsche chamava de o “paralelismo do cordeiro e da ave de rapina”: ou seja, o hostilizado de hoje é a fonte da brutalidade de quem o acossa. Essa dimensão filosófica é explorada numa aventura eletrizante, de montagem ágil, mas atenta à força melodramática em seus momentos de calmaria. A sequência do ataque de falcões é antológica.





















