Latcho Drom, Tony Gatlif (1948-2026)

O realizador franco-argelino, uma das vozes maiores da cultura cigana no cinema europeu, morreu aos 77 anos.

Morreu, aos 77 anos, o cineasta franco-argelino Tony Gatlif, uma das figuras mais importantes na representação da cultura rom no cinema europeu. Foi a família de Gatlif que anunciou esta sexta-feira a morte do realizador, ocorrida na quarta-feira, 2 de setembro, em Arles, devido a um problema de saúde.

Nascido em Argel, em 1948, filho de pai cabila e mãe de etnia cigana, Gatlif chegou a França no início da década de 1960. Depois de perder os pais, Gatlif teve uma juventude atribulada, entrando no mundo do pequeno crime. “Evidentemente, após dois ou três anos nisto, a polícia prendeu-me e entrei na rota da justiça, nos centros de delinquentes. Foi isso que mudou a minha vida”, disse o cineasta ao C7nema em 2022, aquando da estreia de Tom Medina em Cannes. “Conheci num desses centros um homem formidável, um mestre que respeitava muito. Ouvi-o e respeitei-o. Antes disso, não respeitava ninguém, pois a sociedade também não o fazia. Só a partir desse ponto percebi o que era ser um homem na sociedade, ter um papel nela. Foi graças a isso que me vi na Camarga. No meu dossier penal, o juiz leu que era alguém que amava cavalos. Na verdade, foi o que disse num enorme questionário quando fui preso. No tal centro de detenção, leram também isso e o meu mestre pôs-me a trabalhar com cavalos.

Após esse período aproximou-se do teatro e do cinema, realizando a primeira longa-metragem, La Tête en ruine, em 1975. Seguiram-se La Terre au ventre (1978), Canta Gitano (1981), Latcho Drom (1993), Gadjo dilo (1997) e Exils (2004), que lhe trouxeram considerável reconhecimento, particularmente devido a sua abordagem a temas como a migração, o exílio, a identidade e a liberdade, fazendo também da música um elemento central do seu cinema.

“A música faz parte da minha história pessoal e da minha filmografia, não como simples acompanhamento, mas como algo que se funde com o filme, com o som, com tudo”, contou o realizador ao C7nema na estreia de Ange, em 2025, na Croisette, onde a sessão foi acompanhada por um concerto. “A música vem primeiro, antes da palavra. Depois vem a imagem. Quando era criança, aprendi a ler e a escrever com imagens, com filmes. Portanto, para mim, a imagem veio antes da linguagem.”

Premiado pela realização no Festival de Cannes com Exils, protagonizado por Romain Duris e Lubna Azabal, voltaria à Croisette com títulos como Transylvania, Geronimo, Tom Medina e Ange.

A perseguição histórica aos povos rom esteve também no centro de Liberté (2010), enquanto em Vengo (2000) mergulhou no flamenco e em Djam (2017) no rebétiko e nas relações entre a Grécia e a Turquia. O seu último filme, Ange, estreou este ano nas salas nacionais: “Quando olho para os ciganos no mundo inteiro, não olho para os ciganos como joguetes. Eles não são uma atração. Há uma profundidade e uma grande dor neles presente nos meus filmes. Eles não são sórdidos nem lamentáveis. Os ciganos que abordo são rejeitados e tratados pior do que os animais pela sociedade. E isso é inaceitável.”

A família despediu-se do cineasta com a expressão rom “Latcho Drom”, que significa “Boa viagem/Boa jornada”.

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