“Ink” é o filme surpresa de San Sebastián

Depois de abrir Veneza, o drama sobre Rupert Murdoch e The Sun terá duas sessões no Victoria Eugenia, com Boyle presente no sábado.

O segredo acabou: Ink, de Danny Boyle, que no início do mês abriu a 83.ª edição do Festival de Veneza, é o filme surpresa do 74.º Festival de San Sebastián. O drama protagonizado por Jack O’Connell, Guy Pearce e Claire Foy terá uma primeira sessão esta sexta-feira (25), às 11h30, no Teatro Victoria Eugenia, aberta à imprensa e ao público. A segunda projeção acontece no sábado (26), às 16h, desta vez com a presença de Boyle, poucas horas antes da cerimónia de encerramento do festival basco.

Com estreia comercial em Espanha marcada para 6 de janeiro, através da Wanda, Ink chega a Donostia depois da sua estreia mundial na competição de Veneza. Adaptado por James Graham da sua própria peça teatral, o filme recua a 1969 para acompanhar o momento em que Rupert Murdoch compra o jornal The Sun e entrega a Larry Lamb a missão de o reinventar. A operação comercial acabaria por transformar o periódico numa potência da imprensa popular britânica e, na leitura de Boyle, fornece matéria para discutir o poder e a ética num negócio movido pela voracidade pela atenção do público.

Nas mãos do realizador de Trainspotting (1996), 28 Days Later (2002) e Slumdog Millionaire (2008), o material teatral de Graham converte-se num jogo frenético sobre poder e ambição. Câmara, montagem e desenho de som parecem contaminados pela urgência de uma redação que descobre que a notícia não precisa apenas de informar: precisa de seduzir e, acima de tudo, vender.

Na conferência de imprensa realizada em Veneza aquando da apresentação mundial do filme, Boyle explicou que nunca pretendeu transformar Murdoch num vilão unidimensional. “Não queríamos representar Murdoch como um monstro”, afirmou, recordando que o empresário australiano chegou inicialmente como “uma lufada de ar fresco” a uma sociedade britânica rígida e profundamente condicionada pelo establishment. “No início, fomos todos cúmplices dessa viagem”, acrescentou o cineasta, defendendo que o filme acompanha mais diretamente do que a peça a transformação e as consequências do caminho percorrido por Murdoch e Lamb.

É nessa ambiguidade que Ink encontra uma das suas forças. Murdoch, interpretado por Guy Pearce, percebe a transformação social em curso e encontra em Larry Lamb, papel de Jack O’Connell, o homem capaz de converter essa intuição numa máquina de vender jornais. Também na conferência veneziana, O’Connell destacou aquilo que considera essencial na trajetória da sua personagem: “Há um custo, um custo humano.” Mais do que estudar o jornalismo enquanto profissão, interessava-lhe perceber o preço de abdicar de princípios e da privacidade alheia para transformar informação num produto.

Boyle reconheceu em Veneza que levar esta história ao cinema não foi simples. “Fazer um filme como este, com pouco dinheiro, não foi fácil por muitas razões”, explicou. Existia, inclusive, a dúvida sobre a capacidade de Fleet Street ainda significar alguma coisa para as novas gerações: “O filme é sobre a Grã-Bretanha, sobre Fleet Street, e já ninguém sabe o que Fleet Street significa. Quando dizemos que fizemos um filme chamado Ink, toda a gente pensa que é sobre tatuagens.”

James Graham, autor da peça e argumentista da adaptação, também explicou na apresentação veneziana que precisou de repensar o material para o cinema. “Trabalhei em televisão e teatro, mas, no cinema, tive de fazer alguma coisa diferente, por isso apoiei-me muito no Danny e na sua experiência. Trabalhámos intensamente no argumento.” O diálogo teatral foi revisto página a página, numa adaptação interessada não apenas na imprensa de finais dos anos 1960, mas na crise contemporânea da informação. “Fazemos muitas perguntas neste filme, mas não damos respostas”, resumiu Graham.

É justamente essa ponte temporal que impede Ink de funcionar apenas como reconstituição histórica. A batalha pela circulação de jornais antecipa a atual disputa pela atenção; a elasticidade ética necessária para vencer a concorrência encontra ecos na desinformação e nas notícias falsas. Na mesma conferência de Veneza, Boyle levou a discussão até à inteligência artificial e à possibilidade de jornalistas serem substituídos por sistemas mais baratos e eficientes. “O jornalismo é uma das forças principais de qualquer civilização”, afirmou, defendendo a necessidade de profissionais capazes de enfrentar o poder e dizer a verdade mesmo quando ela é profundamente impopular.

Produzido por Studiocanal, Media Res e House Productions, Ink tem entre os produtores Boyle, Tessa Ross, Michael Ellenberg e Tracey Seaward. Depois de abrir Veneza, o filme atravessa agora a Europa para ocupar uma posição muito diferente em San Sebastián: aquela vaga mantida em segredo até aos últimos dias da programação. O mistério acabou, mas Donostia ganhou Danny Boyle para a reta final da sua 74.ª edição.

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