Fotos aparecem toda a hora – por razões distintas – em épocas diversas (anos 1970, 1996, 2014) em “Ainda Estou Aqui”, um dos candidatos ao Prémio de Júri Popular de San Sebastián, na mostra Perlak, antes coroado com a láurea de Melhor Guião no Festival de Veneza. Por vezes, são retratos de (potenciais) subversivos, colados num álbum dos agentes das Forças Armadas do Brasil da ditadura. Na maioria das vezes, são lembranças boas, recordações de família, que se depositam entre páginas de livros ou são guardadas em caixas amareladas pelo tempo. Se o realizador dessa longa-metragem não fosse Walter Salles, essa tal omnipresença fotográfica em papel seria um mero lastro de épocas anteriores às selfies, sem smartphones. Quem se lembra bem do desfecho de “Central do Brasil”, com Fernanda Montenegro, pelo qual WS conquistou o Urso de Ouro, em 1998, vai encontrar um vínculo (um traço autoral) entre os dois filmes num detalhe: um retrato.
Quando decide que rumos vai dar à sua vida, modificada na sua aproximação a um órfão, a professora e “escrevinhadora” de cartas Dora (Montenegro) deixa para o tal miúdo um 3×4 dos dois juntos, um souvenir de um afeto que gera contágio, contaminando a veterana educadora de resiliência. Não por acaso, Fernanda está na película mais recente de Walter e reage a uma imagem que vê, num espasmo de resistência de uma memória em erosão. A dinâmica é a mesma de “Central…”: como dizia Roland Barthes, as fotografias são o templo do “foi aí”, um indício do perpétuo, do durável. Enquadre aí o amor. Fotos são confetes de amor no carnaval da rememoração. Montenegro entra em cena brevemente em ‘Ainda Estou Aqui”, num ponto que não deve ser diluído em spoilers, e, sim, fruído com a surpresa que uma narrativa austera (com algo do “Hanna K” de Costa-Gavras) demanda. Pode-se adiantar, sem medos, que ela vive a versão mais outonal da advogada e ativista Eunice Paiva. A personagem central da fita é vivida, aos 48 anos e aos 60 e muitos, pela filha de Montenegro, Fernanda Torres, numa atuação repleta de contenções, de silêncios, de olhares que marejam oceanos.
Em 1986, Fernanda Torres foi agraciada em Cannes com um prémio de interpretação por “Eu Sei Que Vou te Amor”, um retrato nevrálgico da cultura do vídeo e de poesia urgente de um país que se redemocratizava. Estima-se que ela devore um mar de prémios agora, uma vez mais por uma fase histórica de reaproximação da sua pátria com a democracia, depois dos anos de Bolsonaro.
A carreira europeia e a recente passagem canadiana (via TIFF) de “Ainda Estou Aqui” parece uma resposta a esses anos, compreendidos entre 2018 e 2022, e evocados a cada vez que Jair Bolsonaro faz uma aparição pública. O que Salles faz é apostar numa via amorosa como eixo de reação à cultura de ódio e de intolerância que o ex-governante sul-americano representa. As tais fotos revisitadas por Eunice são pedacinhos coloridos de saudade.

Personagem real, ela transformou-se em literatura num romance homónimo do seu filho, o autor Marcelo Rubens Paiva, celebrizado nas Letras por “Feliz Ano Velho”. A sua prosa resgata o processo de luta da mãe em busca do paradeiro do marido, o ex-deputado Rubens Beyrodt, pai de Marcelo e das suas irmãs: Veroca, Eliana, Nalu e Babiu. A adaptação audiovisual escrita por Heitor Lorega e Murilo Hauser segue a mesma toada. Nos ecrãs, essa peleja de Eunice ganha ainda mais força pela aposta de Salles em mapear com alento, calma e doçura o dia a dia da vida da sua protagonista e do seu companheiro, esplendidamente interpretado por Selton Mello. O eixo inicial faz uma imersão no cotidiano da parceria desse casal e dos seus rebentos.
Quem foi apresentado às cicatrizes dos Anos de Chumbo no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília e todo o território da terra brasilis, ainda que pelos livros da escola, tem razões de sobra para aplaudir Eunice só pelo seu empenho contra um governo tirânico. Graças à longa-metragem, quem é estrangeiro (como o público de San Sebastián) e nada (ou pouco) sabe de um processo ditatorial, que se arrastou por 21 anos de torturas, adere com plenitude à heroína vivida por Fernanda só por notar o mundo que ela viu ruir. Mundo que lutou para manter unido, a duras penas. O que começa como uma história de amor familiar num contexto conflituoso (um pouco como se via em “A História Oficial’, de Luis Puenzo) torna-se, cena a cena, o relato de um calvário, descortinado aos olhos da plateia gradativamente, sem nenhum arroubo melodramático, de modo reflexivo. Parece que o lado documentarista de Salles (expresso em joias como “Socorro Nobre”) colocam-se em vigília na sua nova ficção e fazem a narrativa ser sóbria, mesmo nos picos de dor. As sequências da professora aprisionada juntamente com Rubens, vivida por uma iluminada Carla Ribas, impõem essa sobriedade, notável também na palete cirúrgica de cor da fotografia de Adrian Teijido.
Produzido por Maria Carlota Bruno (de “No Intenso Agora”) e Rodrigo Teixeira (de “A Vida Invisível” e “O Farol”), esse drama, que marca o regresso de Salles às veredas ficcionais, 12 anos depois de “On The Road” (“Na Estrada”), conta com um trunfo artístico na montagem de Affonso Gonçalves. Parceiro habitual de Todd Haynes e Jim Jarmusch, Affosno assegura ritmo (e doses sazonais de comoção), preservando o timbre mais comedido de Walter. O resultado é um estudo sobre uma época de ressaca sob a ótica de quem sofreu com as pressões do regime de farda, resistiu, reagiu e continua a lembrá-lo, convidando toda uma pátria e, agora, também a Europa (via Veneza e San Sebastián), a recordar consigo.



















