Numa altura em que o Mundial de Futebol está à porta, a Netflix faz uma viagem pela ficção até ao México 86, ano em que, pela segunda vez, o país da América Central conseguiu reunir esforços para realizar a principal competição futebolística do planeta.

Mas desenganem-se aqueles que acham que México 86 pode ser lido como um filme sobre futebol. Não é, mas sim como comédia política sobre o fabrico do espetáculo, onde o verdadeiro jogo não se faz com uma bola num relvado, mas em gabinetes, almoços, telefonemas, favores e subornos.

Realizador de filmes como 600 Milhas e produtor de obras como Chronic, de Michel Franco, e Desde Allá, de Lorenzo Vigas, Gabriel Ripstein sempre pareceu interessado, no seu cinema, em terrenos moralmente contaminados, onde o crime, o poder, a burocracia e a sobrevivência se misturam. Aqui, demonstra estar menos preocupado com mitologia do Mundial de 1986 e mais na engenharia que permite transformar um evento desportivo numa operação diplomática e económica, com cariz nacionalista.

Comédia política sobre os bastidores, numa linhagem em que filmes como The Big Short deram cartas, o filme foca a sua atenção na figura de Martín de la Torre, um contabilista que trabalha na Federação Mexicana de Futebol e que opera um verdadeiro golpe de estado interno para assumir a presidência da instituição. Com um clima de guerra civil instalado na Colômbia em 1983, esse país desiste de organizar o Mundial, surgindo o México e os EUA como os candidatos mais bem colocados para o realizar.

Com a ambição de subir na vida, mesmo que por ruelas repletas de sombras morais, na personagem de Diego Luna existem ideologicamente traços do Jordan Belfort que DiCaprio interpretou em O Lobo de Wall Street, não como predador financeiro ou sequer como bon vivant sedutor, mas como um underdog carismático que sabe se movimentar pelas entranhas de um sistema viciado. É que Martín de la Torre parece compreender que, nos bastidores do Mundial, a verdade importa menos do que a capacidade de vender uma narrativa convincente, não apenas ao país, mas à FIFA, aos políticos e a si próprio. A sua força está na energia de vendedor moralmente elástico, capaz de transformar o improviso, a corrupção e o oportunismo numa espécie de euforia pessoal que se transforma nacional.

Por aqui, o mundial de futebol em si surge como uma forma de converter a crise económica que o país atravessava, e que se reflectia também em Martín, que vive um casamento infeliz, numa história de triunfo. A sombra do terramoto de 1985 na Cidade do México, que põe em risco a realização do Mundial, serve também de carburante para uma nação que precisava de luto e reconstrução, mas também de espetáculo e de se saber vender.

Com imagens reais dos jogos de futebol inseridas na ficção, o filme vai bem além da realização do Mundial, centrando-se na ascensão meteórica de Martín e na sua queda. Falha principalmente pela forma como vai contando, quase episodicamente, os eventos mais caricatos do seu reinado, pois, com tanta história e tanta matéria política, o filme arrisca parecer demasiado leve para aquilo que chama a si.

Por outro lado, funciona plenamente quando se assume como farsa na exposição do Mundial como grande truque institucional, contando para isso com um Diego Luna que, embora não evite demasiados maneirismos, consegue nos cativar e preencher o seu Martin como um homem que sabe vender uma mentira como visão estratégica. E nisso, México 86 revela ser um filme totalmente atual.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira Rosa
entre-corrupcao-e-espetaculo-mexico-86-reve-o-outro-lado-do-futebolFunciona plenamente quando se assume como farsa na exposição do Mundial como grande truque institucional, contando para isso com um Diego Luna que, embora não evite demasiados maneirismos, consegue nos cativar e preencher o seu Martin como um homem que sabe vender uma mentira como visão estratégica