Raras foram as vezes em que dragões inspiraram narrativas cinematográficas pautadas pela originalidade nos seus guiões, como se viu em “Reign of Fire” (2002), no qual criaturas que vomitam chamas tomam o mundo para si e encaram as machadadas de Matthew McConaughey numa distopia retrofuturista. Antes, Dennis Quaid fez amizade com o lagartão que falava com a fleuma de Sean Connery em “Dragonheart” (1996). No século XXI, “The Hobbit: The Desolation of Smaug” (2013) assegurou o charme e ironia ao mito da fera escamosa graças à interpretação (vocal) de Benedict Cumberbatch, mas limitou-se ao registo que J.R.R. Tolkien (1892-1973) consagrou na sua prosa, em 1937. Reinvenção, portanto, é uma palavra que não se pode esperar de filmes mais recentes que investiram numa mitologia em que os corações RPG ou Role-Playing Game transformaram num culto pop. Assim sendo, “How to Train Your Dragon”, versão em carne, osso e CGI (computer-generated imagery) da animação homónima de 2010, não tem surpresas dramatúrgicas na sua essência, posta em cena por um orçamento de US$ 150 milhões. Tem, entretanto, destreza de sobra, e uma excelente dupla de atores num jogo pai x filho: Gerard Butler e Mason Thames.
Fortalecido comercialmente por uma arrecadação estimada em US$ 364 milhões, contabilizada em cerca de 10 dias, “How to Train Your Dragon” (“Como Treinares O Teu Dragão”) credita como fonte inspiradora a obra literária homónima de Cressida Cowell, mas apoia-se mais na aventura animada dela derivada, quase que num decalque. Dean DeBlois, que assina a realização e o argumento, pilotou a longa-metragem em computação gráfica de 15 anos atrás, com Chris Sanders. Quem cresceu com a produção de outrora vai se sentir em casa na sua releitura feita live action. Ela obedece a uma cartilha que a Disney hoje segue com retidão de revisitar os seus sucessos de outrora, em desenho ou em traços digitais, com elenco de relevo. É o caso do recente “Lilo & Stitch”, que se transformou nuam Slot Machine cinematográfica sem perder a doçura da sua matriz. DeBlois conseguiu o mesmo com a sua montanha-russa de pavimento histórico viking.
Rodado em Belfast, ainda que se reporte à cultura escandinava, “How to Train Your Dragon” veste-se de uma montagem resfolegante de Wyatt Smith para contagiar as plateias com o processo de amadurecimento de Hiccup Horrendous Haddock III, ou melhor, Soluço (papel de Thames). Há sangue real nas veias, visto que ele é filho de Stoick, líder de uma comunidade acossada por dragões. É um sujeito de uma melancolia indisfarçável, que Butler gargareja com sabedoria, a atestar o enorme talento pouco valorizado que tem e demonstrou (bem) em “300”, em 2007. A sua habilidade para encarar senhores da guerra alquebrados é notável, vide “Coriolano”, que Ralph Fiennes realizou em 2011.
A mulher desse guerreiro, mãe de Hiccup, morreu num ataque das bestas que bafejam jatos ígneos, o que o levou a odiar tal raça. Com a percepção de que o seu rebento está na idade de entrar para os campos de batalha, Stoick manda o miúdo para ser treinado pelo amigo do peito, o armeiro Gobber (Nick Frost em pirosa atuação). Ali, o rapaz vai-se apaixonar pela maior combatente da sua cidade, Astrid (Nico Parker), num esforço de esconder dela, do seu instrutor e do pai que é amigo de um dragão, Banguela.
O processo de aproximação deles é uma celebração das diferenças e um libelo antirracista, que se cristaliza na tela com um pé na fábula e as asas abertas para a adrenalina. Toda a celebração nerd que se fez sobre enredos capa & espada a partir de RPGs como “Dungeons & Dragons” e a sua versão animada ( “Caverna do Dragão”, com o Mestre dos Magos, o Vingador e o monstro Tiamat) ganha um envelope afetuoso de DeBlois.
Em Portugal, nas cópias com dobragem, Henrique Mello e Nuno Pardal fazem as vozes de Stoick e Hiccup. No Brasil, Mauro Ramos e Gustavo Pereira “dublam” as personagens.




















