Alexander Payne sempre primou pelas suas representações satíricas da sociedade americana contemporânea, e embora “Downsizing” tenha sido um desastre (há que chamar as coisas pelo nome) e tenha contribuído para o “encolhimento” da sua relevância enquanto autor, obras como “Election” (1999), “About Schmidt” (2002), “Sideways” (2004), “The Descendents” (2011) e, especialmente, “Nebraska” (2013) são mais que suficientes para o fincar na história do cinema da terra do Tio Sam.
Com “The Holdovers” (Os Excluídos) existe tanta leveza do cineasta, na forma como aborda o material que tem em mãos, como nostalgia, tudo numa visita aos anos 70 e a uma escola particular elitista que prepara a nata da sociedade para a faculdade. É aí, neste conto escrito por David Hemingson, que parece adaptado de um livro, mas não é, que vamos conhecer Paul Hunham (Paul Giamatti), um professor de história clássica profundamente desiludido e irritado com os conhecimentos (ou antes, a falta deles) dos seus alunos, todos filhos de gente com dinheiro e/ou cargos políticos ou empresariais de topo, já com as carreiras universitárias traçadas.
Sempre a debitar pequenos pedaços da História que se entrelaçam com o mundo contemporâneo, Paul é implacável na hora de dar notas, colocando estes jovens alunos, com fraca noção da sua condição de privilégio, entre a espada e a parede no que concerne ao futuro. E apesar das chamadas de atenção que o reitor – o Dr. Hardy Wooddrip (Andrew Garman) – lhe dá, para ele ser mais brando com os filhos de senadores e doadores de dinheiro à faculdade, Paul permanece intransigente, ainda que o seu espírito culto o mantenha aberto a dar novas oportunidades. É numa dessas desavenças com os alunos, logo a seguir a correr quase toda a turma com notas medíocres, que ele acede em fazer um teste intercalar, mas para isso os rapazes terão de passar a tradicional época festiva a estudar.
Para preencher o seu Paul Hunham de camadas e camadas de complexidade, Payne requisita Paul Giamatti, que com ele já tinha brilhado em “Sideways”. Da fisicalidade (onde sobressai um olho preguiçoso e um odor corporal particular), à psicologia de Paul, que se orienta completamente para o conhecimento e trabalho, desligando-se dos prazeres efémeros, Hemingson e Payne criam uma personagem longe do afável, já que o sarcasmo muitas vezes sai da sua boca como um tsunami de arrogância. Claro está que ninguém na turma e até na escola, gosta muito dele, com exceção de alguns trabalhadores em cargos de inferior hierarquia educacional à sua. Na verdade, no seu processo de construção académica e envelhecimento natural, Paul deixou de entender o mundo, como afirma, afastando-se um pouco de todos e, como os alunos da escola (a maioria deixada ‘ao abandono’ pelos pais), encontra-se submerso numa solidão intimidante. Por isso mesmo, ele apenas começa a dar-se a conhecer melhor e a abrir o seu interior ao espectador quando é forçado a passar a noite de natal e os dias que se seguem na escola, juntamente com um aluno rebelde, Angus Tully (Dominic Sessa), e Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph), a mulher que lidera o refeitório.

Será fundamentalmente no desenvolvimento da relação entre professor e o aluno, nunca esquecendo Mary Lamb como “acompanhante” dessa jornada, que o filme se vai movimentar, levando a descobertas mútuas e à revelação de personas que todos eles não sabiam que os outros tinham.
Criteriosamente fotografado por Eigil Bryld, “The Holdovers” frequentemente joga com filmagens em grandes espaços, ampliando o isolamento das suas personagens. Porém, quando elas se aproximam do calor do conhecimento mútuo, Bryld faz questão de aproximar as lentes delas, tudo num ato de conexão e enriquecimento pessoal.
Claro está que além do guião delicado e repleto de nuances, ora dramáticas, ora cómicas, a grande força do filme vem da interpretação da interpretação de Paul Giamatti, que nasceu para este tipo de papéis. Sob a condução segura do realizador, a Giamatti junta-se um Dominic Sessa eficaz nas suas angústias adolescentes, confusão sentimental e dor de rejeição, além de Da’Vine Joy Randolph, que no papel da doída responsável pelo refeitório acaba por ser a única personagem que ampara e serve de muleta a Paul.
Apesar de estarem em polos diferentes, o arco narrativo de Paul levará alguns a recordar “Dead Poets Society”. Mas aqui não há “Oh Captain! My Captain!” ou “Carpe Diem”. Há o ensinar a viver e lidar com as agruras da vida e se for preciso partir para outra, já com o íntimo transformado e renovado.
Um belo regresso de Alexander Payne à boa forma.




















