Uma seleção pequena, mas de grande valor em termos de qualidade, marca o Cinefiesta, evento que arranca hoje (21/11) em Lisboa e que terá continuação no Porto na próxima semana. “Mientras Dormes” abre a mostra, seguido do candidato espanhol ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Blancanieves”. Ficção, animação e documentários marcam o evento.
Este ano, pela primeira vez, o público irá escolher o melhor filme, que receberá o prémio FNAC. As sessões serão sempre no cinema São Jorge, encerando dia 25 com o filme “Lo Sexo de Los Angeles”. No Porto realiza-se entre 26/11 e 02/12 – no teatro do Campo Alegre, na biblioteca Almeida Garrett e no Dolce Vita Porto. A iniciativa é de instituições governamentais espanholas em parceria com a Zon e a Cinemateca.
Dez filmes em cinco dias preenchem a mostra principal. Um dos destaques é “Blancanieves”, segundo filme do cineasta Pablo Berger, realizado nove anos após a sua prestigiosa estreia com “Torremolinos 73” – obra que lhe rendeu dois Goyas (o Oscar do cinema Espanhol). O filme é uma abordagem relativamente fiel do conto dos irmãos Grimm, mas contada de uma forma pouco usual: sem diálogos e em preto-e-branco, com as legendas que eram usuais no cinema mudo. Longe de ser problemática, essa opção garante interesse a partir de uma enorme inventividade visual e sonora.
Blancanieves
“Mientras Duermes” é o primeiro filme de Jaume Balagueró depois do enorme sucesso de “REC”, cujas duas primeiras obras da franquia realizou em parceria com Paco Plaza. Num registo mais leve, trata da obstinação de um porteiro um tanto psicótico em tornar infeliz uma moradora do prédio onde trabalha. O que começa num jogo aparentemente banal adquire trágicas consequências.
A maturidade cinematográfica de “Grupo 7” vem de uma trajetória já bastante relevante de seu realizador, Alberto Rodríguez. Seu segundo filme, “El Traje”(2002), esteve no Festival de Berlim; três anos depois, com “7 Virgens”, é premiado em San Sebastian e recebe nomeações para seis Goyas, para além de alcançar um público de 1 milhão de espetadores. “Grupo 7” trata da “operação de limpeza” levada a cabo por um grupo especial da polícia espanhola antes da Expo de Sevilha, em 1992. Ação vertiginosa, crítica sócio/política e crises existenciais numa obra de grande interesse.
“Tengo Ganas de Ti”, de Fernando González Molina, é, na verdade, uma sequela de um dos maiores êxitos da história cinema espanhol, “Três Metros del Cielo”, o filme mais lucrativo de 2010 (que já teve a sua versão italiana em 2004). Os mesmos protagonistas desta história romântica, os atores Mário Casas e María Valverde, estão de volta nesta obra, onde estão separados e ele tenta reconstruir sua vida ao lado de outra mulher. Mas o reencontro será inevitável. Molina tem tido sempre êxito no circuito comercial do seu país. Foi assim desde sua estreia, com “Fuga de Cérebros” (2009), que teve uma sequela por ele produzida em 2011.
Alex de La Iglesia dispensa maiores apresentações e já há mais de uma década é um dos mais bem-sucedidos e respeitados nomes do cinema espanhol. Além das coleções de prémios no seu país, vem de dois (incluindo melhor realizador) do Festival de Veneza do ano passado, com “Balada Triste da Trombeta”. “La Chispa de La Vida” conta com Salma Hayek como protagonista e, com um forte sentido de crítica social, narra o circo mediático à volta de um homem que sofre um acidente numa obra recém-inaugurada e fica preso ao solo por um ferro que entra da sua cabeça. Questões típicas da sua obra, como a ganância e a decadência moral, estão aqui presentes.
Icíar Bollaín, que surge com “También La Lluvia”, é também uma cineasta com um currículo bastante respeitável. A história gira em torna de uma equipa de filmagem que vai à Bolívia produzir um filme sobre Cristóvão Colombo e acaba por se envolver nos violentos episódios de protestos civis contra a privatização da companhia fornecedora de água. Este filme foi o escolhido pelos espanhóis para concorrer ao Oscar em 2010 e venceu o prémio do público na seção Panorama, no Festival de Berlim. Além disto, rendeu uma nomeação ao Goya de Melhor Realizador, prémio que já venceu em 2003, com “Dou-te Os Meus Olhos”. Os seus filmes renderam diversos Goyas e “Flores de Otro Mundo”, de 1999, venceu a Semana da Crítica no Festival de Cannes.
También La Lluvia
“Fin” é o primeiro filme de Jorge Terragosa e trata de um grupo de amigos que se encontra depois de muitos anos para uma excursão na montanha. Esta adquire contornos menos agradáveis após perderem-se, para além de terem que lidar com um episódio sombrio do passado.
O triângulo amoroso de “El Sexo de Los Angeles” é a sexta longa-metragem de Xavier Villaverde, cujo filme encerra o Cinefiesta. Trata de um casal que com um relacionamento estável que é subitamente abalado pela chegada de um jovem.
“As Aventuras de Tadeo Jones” é a primeira longa de Enrique Gato, já vencedor de dois Goyas por curtas de animação com esta personagem, que é uma criação sua. Nesta obra, um sucesso estrondoso em Espanha, o pedreiro Tadeo Jones é confundido com um arqueólogo e enviado para o Peru, onde tenta com um inusitado grupo de amigos proteger a civilização inca de exploradores mal-intencionados.
Outra animação, agora mais adulta, é “Arrugas”, também uma estreia na realização – de Ignacio Ferreras. O tema é a velhice, retratando a amizade entre dois idosos internados num lar. Venceu o Goya de Melhor Animação e Melhor Argumento.
A mostra é complementada com a exibição de três filmes da retrospetiva dedicada a um dos grandes nomes do cinema espanhol, Victor Erice, e quatro documentários – todos na Cinemateca. Destaque para “Mercado de Futuros”, sobre a crise económica atual e “Al Final del Túnel”, que aborda a pacificação da ETA.

