Festival de Biarritz abre espaço para a diversidade das estéticas da América Latina

(Fotos: Divulgação)

Assim que a 69ª edição da competição pela Concha de Ouro de San Sebastián chegar ao fim, no próximo dia 25, a sua vizinha francesa, Biarritz, vai iniciar os festejos dos seus 30 anos de fé na estética latino-americana, com competição de curtas e longas-metragens. Criado em 1991, para servir como montra para a América Latina no Velho Mundo, o festival francês presidido por Serge Fohn, com Antoine Sebire no posto de delegado geral, promove uma radiografia de temas que hoje mobilizam as Américas de passado colonial ibérico.

Violências contra todas as populações LGBTQs+, gentrificação, abandonos familiares, emancipações femininas, traumas de ditaduras e covid-19 são os assuntos mais recorrentes do evento, que promove revisão da obra do ator e documentarista chileno Ignacio Agüero, diretor de “Cien niños esperando un tren” (1988). Agendada de 27 de setembro a 3 de outubro, essa maratona importou de Cannes a produção uruguaia “El Empleado y el Patrón”, de Manuel Nieto Zas, para uma sessão hors-concours. Para a seleção competitiva, há títulos dominicanos (caso de “Una película sobre parejas”, de Natalia Cabral e Oriol Estrada; e de “Candela”, de Andrés Farías Cintrón), mexicanos (como “Mostro”, de José Pablo Escamilla) e costa-ricenses (“Objetos rebeldes”, de Carolina Arias Ortiz). Mas haverá um espaço nobre para a língua portuguesa, pois há quatro filmes brasileiros em disputa, em seções distintas.

Nas curtas, o Brasil entra em campo com “Igual / Diferente / Ambas / Nenhuma”, de Fernanda Pessoa e Adriana Barbosa. Fernanda vive em São Paulo e Adriana, em Los Angeles. Ambas trocam cartas em vídeo durante o mês de maio e abril de 2020, numa relação epistolar que faz um balanço da situação social e política no Brasil e nos Estados Unidos. As conversas entre as duas apanham a contaminação do global pelo local, do privado pelo público. No rasto delas estão dois concorrentes de peso: o argentino “El Oso antártico” e o colombiano “Son of Sodom”.

Já na seara das longas, haverá brasilidade na seara da ficção – com “Capitu e o Capítulo”, novo trabalho de uma lenda autoral chamada Julio Bressane, e “Madalena”, de Madiano Marcheti, ambos vindos de Roterdão – e no empório documental – com “Edna”, de Eryk Rocha, um dos destaques do É Tudo Verdade 2021 e do Festival de Telluride, nos EUA.

Editado por Rodrigo Lima e vitaminado por um elenco de peso (Mariana Ximenes, Enrique Diaz, Djin Sganzerla, Vladimir Brichta e Saulo Rodrigues), “Capitu e o Capítulo” é a imersão de Bressane no universo em prosa de Machado de Assis, a partir de “Dom Casmurro”. Mas o diretor de “Filme de Amor” (2003) não adapta o romance (sobre um advogado ciumento em suspeita de que sua esposa, Capitu, o traiu com seu melhor amigo) em si. Ele se propõe mais (e melhor) a adaptar a escrita machadiana em seu ritmo, sua respiração doentia

Erigida a partir de uma delicadíssima montagem, “Madalena” é uma produção do Centro-Oeste, rodada em Dourados, incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que despoleta a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si e vêm de realidades socioculturais diferentes.

Lançado mundialmente no Visions du Réel Film Festival, na Suíça, “Edna” tem levado Eryk Rocha a alguns dos principais eventos documentais do planisfério cinéfilo. Nele, o realizador de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016) arranha as franjas do lirismo, apoiado numa estonteante fotografia em P&B, embalado em uma canção de Paulo Sérgio (“Máquinas Humanas”). Apoiado numa narrativa híbrida, nas raias da rodovia Transbrasiliana, o cineasta transita entre o real e o imaginário, por guerrilhas, desaparecimentos e desmatamentos, com foco no diário de uma mulher assolada por palavras e recordações regadas a sangue, algumas delas ligadas à Guerrilha do Araguaya.

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