Mostro: “um grito de protesto” contra o governo mexicano

(Fotos: Divulgação)

O cinema mexicano continua a produzir talentos a uma velocidade estonteante, mantendo igualmente uma forte componente política e social nos seus temas, sendo frequentes questões como a luta de classes, as estruturas de poder e o crime.

José Pablo Escamilla é um novo nome da safra cinéfila mexicana, tendo apresentado no Festival de Locarno, no Concorso Cineasti del presente, “Mostro”, uma primeira longa-metragem que conta a frágil situação em que vivem os jovens sob o governo mexicano. Uma situação fragilizada não apenas pelas condições de trabalho precárias, mas também pela cultura do medo instituída devido aos frequentes sequestros no país, muitos deles com o dedo da própria polícia. 

Em “Mostro” seguimos dois adolescentes, operários fabris, que passam as tardes consumindo substâncias químicas num espaço construído por eles mesmos. Essas viagens de êxtase e as visões que experimentam fazem-nos esquecer por um momento a barulhenta vida da cidade industrial e o mundo de regras e rotineiro que vivem. Porém, quando um deles, Alexandra, desaparece, Lucas deve lidar com todo um sistema corrompido.

Com uma estética carregada entre o verité e frequentes viagens alucinatórias e oníricas, José Pablo Escamilla executa um filme que o próprio define como “um grito de protesto“. Vale a pena ler abaixo a entrevista que fizemos ao jovem cineasta mexicano durante o Festival de Locarno.

Mostro

Este é um filme duro, como o trabalhaste e desenvolveste?

Esta é uma ficção trabalhada muito num processo documental. À medida que vamos investigando e escrevendo o guião, imaginando as sequências reais, oníricas e alternativas, foi tudo muito intuitivo, sem muitas restrições de terminar os processos antes de passar a outros. Sabes, o cinema funciona por processos e para passar para o seguinte tens de ter acabado o anterior. Para uma produção tem de haver uma pré-produção e depois das duas uma pós-produção. Aqui, por seu lado, foi tudo mais ou menos ao mesmo tempo. Quando filmámos já havia um pouco de correcção de cor. Escrevemos, filmamos, montamos e refazemos três ou quatro vezes o processo de escrita, voltar a filmar, montagem, etc.

Foi um processo muito livre. Uma das regras da rodagem era não exigir respostas, mas sim fazer perguntas e tentar ver onde essas questões nos levavam. Começámos com um guião de 20 páginas que foi crescendo e no final tinha 45 na forma de conto. Filmámos tudo de um jeito guerrilha, com uma equipa muito pequena, como nos documentários, e vendo sempre onde a realidade nos levava.

E aqueles momentos oníricos, cujo visual que se instala é muito psicadélico, como os imaginaste e criaste?

Estudar os sonhos é uma obsessão minha desde sempre. Tenho um diário de sonhos onde anoto tudo o que sonho. E analiso isso em confronto com o mundo em que estou acordado. É muito interessante ver como os sonhos se expressam no subconsciente. Interessava-me muito explorar isso e retrata-lo.

Olhando para estas personagens dava a sensação que estavam muito constrangidas com as suas possibilidade sociais, responsabilidades laborais e a sociedade de consumo. Por isso pensava: em que momento são elas realmente livres? Elas só são livres quando se ausentam do trabalho, quando fazem estas pequenas ações que, por mais minúsculas que sejam, são anti-sistema. Como aquelas em que em vez de estarem a trabalhar, vão ler uma mensagem de texto. Pequenas armas e ferramentas que usam para viver nesta realidade. Tínhamos de fazer um comentário sobre a impossibilidade desta juventude trabalhadora de aceder aos seus prazeres, às suas diversões. É através do subsconsciente que eles o fazem, de forma a escapar a uma realidade que não os satisfaz. Por isso buscam os impulsos químicos externos para atingir a liberdade.

O filme é descrito como um ensaio “Capitalista Realista Mexicano”. É frequente, quase que está no DNA dos cineastas locais, a abordagem às questões de classe. Veja-se por exemplo o Michel Franco (Nuevo Orden), ou o David Zonana (Mano de Obra, também produzido por Michel Franco) e por aí fora…

O termo capitalismo realista é uma referência a “Capitalist Realism: Is There No Alternative?”, um livro de 2009 do teórico britânico Mark Fisher que estudou a cultura contemporânea. Lemos este livro e a partir dele pensei: o que pensaria o Mark Fincher do México, com as características do seu estado e também de um narcoestado? 

Parece-me importante a reflexão e contar histórias que ofereçam visibilidade a gente que não tem visibilidade na vida. Às pessoas que passam despercebidas, pois passam o tempo todo a trabalhar. No México vives todo o tempo com uma bipolaridade de realidades. Ser cineasta e filmar é um privilégio, mas também uma grande responsabilidade. Sempre me senti politicamente muito envolvido no meu país. Desde pequeno o meu pai mostrava-me esta luta contra um sistema que no fundo é uma simulação. 

Por outro lado, no México não interessam muito as histórias de quem vive uma vida normal. Neste momento, um tema que acho que devemos falar e refletir é este dos desaparecimentos forçados. Nos anos 70 houve desaparecimentos políticos no país, mas não chegaram aos números que temos hoje. E como o título do nosso filme demonstra, há um monstro em nós que vai crescendo…

Mostro

Um monstro com vários tentáculos pois são frequentes os filmes sobre desaparecimentos. Existem os sequestros por parte dos cartéis de narcotráfico, mas também outros. Por exemplo, este ano vi em Cannes o “La Civil“, que mostrava outro tipo de desaparecimentos. E no teu caso, temos raptos orquestrados pela própria policia. 

Há um livro que mudou a minha perspetiva sobre o meu país. Chama-se “México Bárbaro”. Foi escrito por um jornalista norte-americano que veio ao México na época do Porfiriato (período de 30 anos durante o qual governou o país o general Porfirio Diaz). Pareceu-me aberrante e terrível que desde esse período a polícia sirva para sequestrar pessoas e escravizá-las. Eles prendiam as pessoas nas ruas, levavam-nos para a esquadra, mas depois essas pessoas acordavam numa fazenda em Yucatán e estavam a trabalhar forçosamente para um capataz. Até certo ponto, as coisas não mudaram muito até agora. E é isso que pergunto neste filme. Quanto mudaram as coisas?

O narcotráfico sequestra muita gente para as suas próprias infraestruturas. Gente de informática, médicos, engenheiros. Gente forçada a ajudá-los para que possam aceder a infraestruturas, tecnologias e pessoas que não conseguiriam de forma legal. Os números são alarmantes.

Por exemplo, este ano fomos de férias à praia e no dia que chegamos, na povoação, tinha desaparecido uma mulher. Como podemos viver assim? É importante exercitar empatia com estas situações, mesmo que não te toquem diretamente. Exercitar a solidariedade e abrir o coração às problemáticas dos outros. É horrível o que se passa com as famílias dos desaparecidos. A maioria desses raptos são mulheres e percebemos que existem muitas uniões entre os governos e os grupos armados, a polícia, o exército, para esses mesmos sequestros. São coisas horríveis e não temos uma boa capacidade de autocrítica. Parece-me importante explorar isso, mas sempre longe do olhar da porno-miséria. Esta questão foi uma das coisas que mais pensei. Como falar deste tema sem fazer porno-miséria? Espero que não cataloguem o filme assim. O seu objetivo é despertar a discussão. (…) e é importante mostrar o rosto das vítimas e fazer com que as pessoas que assistem ao filme sintam o que elas estão a sentir. 

Vai continuar a trabalhar neste género de filmes políticos e sociais?

Sim, não consigo escapar a eles. Surpreendo a minha mãe com os filmes que faço e digo-lhe que adoraria fazer filmes sobre coisas bonitas. Filmes que dissessem: que lindo que é viver! Sim, é lindo, mas às vezes não é tão lindo assim. Temos que exercer a nossa liberdade todos os dias 

Tens um novo projeto?

Sim, fiquei com um travo amargo com este filme (risos). Este é um projeto muito negativo e agora queria fazer algo mais luminoso. Vou continuar a explorar o tema dos desaparecimentos, mas com outras personagens e problemáticas. Tenho várias ideias, alguns guiões escritos e vamos agora tentar o financiamento para o próximo.

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