Edna: depois de ‘Cinema Novo’, Eryk Rocha faz cinema de novo, na estrada do real

(Fotos: Divulgação)


Nesta sexta-feira, dois dos mais disputados festivais de não ficção do planeta acolhem a estreia do novo filme de Eryk Rocha, feito na espuma do sucesso de “Cinema Novo”, que rendeu-lhe o L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016 – um troféu equivalente à Palma de Ouro, só que dedicada a documentários. Tanto o É Tudo Verdade, no Brasil, quanto o Visions du Réel, na França, terão Eryk nas suas competições, representado por “Edna”.

Trata-se do seu filme mais lúdico. O foco é Edna Rodrigues de Souza, que vivendo à beira da rodovia Transbrasiliana, na Amazónia brasileira, é testemunha de uma terra em ruínas construída sobre massacres. Criada apenas pela mãe, ela vivencia no seu corpo e no dos seus descendentes as marcas de uma guerra que, segundo ela, nunca acabou. Por meio dos seus relatos e escritos, o filme constrói uma narrativa híbrida, que move-se entre a realidade e o imaginário. Tudo é tecido a partir da memória de Edna e o seu diário é intitulado “História da Minha Vida”. Nas suas páginas, ela narra uma vida açoitada por guerrilhas, por desaparecimentos e por desmatamentos, mas também a força das mulheres, dos rios e das matas que insistem em sobreviver.

No Visions, a produção, fotografada pelo próprio Eryk e por Jorge Chechile, entrou na seção Burning Lights, na luta por prémios. No É Tudo Verdade, ele integra a mostra competitiva principal. O argumento é da atriz Gabriela Carneiro da Cunha, que assina o roteiro a seis mãos com o cineasta e com o montador Renato Valone. No trailer já divulgado, toca Paulo Sérgio, com o hitMáquinas Humanas”, que amassa corações e acaricia os tímpanos.

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Eryk Rocha

Para além da estreia de “Edna”, a obra de Eryk está arrebatando aplausos e atraindo holofotes em outras latitudes, no seu avanço pela streaminguesfera. O seu aclamado “Cinema Novo” vai ser lançado na Netflix em breve, no Brasil. Em cartaz no menu do Globoplay, o seu recente “Breve Miragem de Sol” acaba de ser lançado na Amazon Prime da América Latina (exceto Brasil e Argentina), entrando ainda em países falantes de língua inglesa.

Na entrevista a seguir, Eryk compartilha reflexões artísticas e náuseas políticas com o C7nema.

Apesar de toda a tónica (geo) política que tem, “Edna” promove um delicado estudo da solidão. Queria entender a dimensão que as personagens solitáras têm no seu cinema, pois mesmo o taxista de “Breve Mirada de Sol”, a sua ficção mais recente, parece seguir esse caminho, o dos solitários. O que a solidão rende de poesia para o seu cinema documental? O quanto a solidão da Edna é uma solidão do Brasil?

A solidão é o princípio e o desfecho da vida. Faz parte do mistério da existência. Mas apesar das diferenças, tanto Paulo, em “Breve Miragem de Sol”, quanto Edna, compartilham a solidão dentro de um território destruído. Ambos buscam povoar a solidão com imaginação, luta e sobrevivência. São seres em movimento, que não estão acomodados nem integrados no sistema. São seres assistémicos, que buscam, à sua maneira, um lugar no mundo. Edna vive a solidão de um testemunho que, por causa do medo e do risco, durante muito tempo, foi silenciado. Ela quer falar, quer ser ouvida. Por isso escreve poesia e nos ensina a ouvir a voz do vento. Ela encarna a terra, o “corpo-terra”, a luta pela terra. É uma imagem tão forte que permeia a história de sangue do Brasil.

Há cinco anos você conquistou a Palma dos documentários de Cannes. De que maneira o sucesso de “Cinema Novo” mudou a sua carreira, em especial na relação com o mundo, em relação a outros territórios? O que aquele filme te trouxe de mais sólido na lida com a memória cinematográfica doseu país? Como é rever, hoje, o cinema do seu pai e o dos contemporâneos dele?

Realizar “Cinema Novo” foi um imenso desafio, pois era um filme muito complexo com muitas camadas…. Além da própria perspetiva histórica do movimento, estávamos lidando com um conjunto, com uma diversidade de cineastas/autores com singularidades e estilos, e havia uma multidão de filmes. Mas o nosso maior desejo era atualizar a potência e contemporaneizar o movimento, trazê-lo para o presente, dar movimento ao movimento. Então vinha a pergunta: como a partir de uma multidão de fragmentos de filmes criar um novo corpo? Como criar novos sentidos e caminhos? E essa necessidade ficou mais evidente quando percebemos que estávamos montando o filme enquanto o país sofria um novo golpe. Eu e Renato Vallone, o montador do filme, todo dia sentíamos e éramos afetados fisicamente por isso. Então, ficou nítido que não estávamos falando do passado, da História, numa perspectiva historicista, anedótica ou saudosista.

Estávamos no olho da História, revivendo, como geração, um novo golpe, uma marcha ré da História. Esse sentimento foi muito forte na estreia mundial do filme, em Cannes, em 2016. Então, cada vez mais, vejo o legado do “Cinema Novo” como um estado de espírito, uma atitude, um embate de um cineasta diante das contradições do seu tempo. A luta contra o subdesenvolvimento. A arte como um gesto de invenção e coragem que pode nos ajudar a, por exemplo, entender, interpretar e sobretudo transformar hoje esse catastrófico Brasil de 2021.

Qual é o sentido da expressão “fake news” num país como o Brasil? Já que estamos num evento que fala de “verdade”, o que seriam as tais “falsas notícias”?

A História Oficial é uma fake news. A combinação tóxica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado fundou as fake news. Há mais de 500 anos vivemos a cultura da fake news, engendrada pelas elites que sempre manipularam e oprimiram o povo. Uma grande parte da média comercial, nas suas diferentes modalidades, historicamente, também teve esse papel, de servir a interesses dessa mesma oligarquia. Então, infelizmente, as fake news, no sentido mais amplo, historicamente, foi uma verdade e uma estratégia de governar, manipular, controlar e escravizar. O que foi, por exemplo, a transmissão do debate entre Lula e Collor na eleição de 1989? Como foi mostrado esse debate? Recentemente, as fakes news ganharam novos contornos, principalmente por meio da tecnologia e das redes sociais. Os casos recentes mais emblemáticos foram as eleições de Trump e Bolsonaro. Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, apontou três níveis históricos de exploração: a exploração que escravizou os povos, o corpo e energia humana; a exploração das riquezas da natureza; e, mais recentemente, a manipulação e rastreamento de dados. A manipulação destes dados por parte das grandes empresas de comunicação eletrónica é a grande responsável pela progressiva substituição das relações sociais pelos dados enquanto fundamento, sentido e valorização da vida coletiva.

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