Os Tradutores: thriller no mundo da literatura chega às salas

Na tímida reabertura das salas de cinema em Portugal, "Os Tradutores" é um dos filmes inéditos que chegou esta semana ao mercado. Entrevista ao realizador, Régis Roinsard.

(Fotos: Divulgação)

Inspirado no processo de tradução de livros famosos e secretivos – como Inferno de Dan Brown – no filme acompanhamos um grupo de tradutores internacionais que é contratado para traduzir a nova obra de um autor que se mantém longe dos holofotes. Nove tradutores são assim confinados numa luxuosa cave e guiados por um editor que aos poucos e poucos vai entregando as linhas finais de um livro que encerra uma série de sucesso. Porém, quando as dez primeiras páginas do manuscrito ultrassecreto aparecem online, o emprego dos sonhos destes tradutores torna-se um pesadelo: o ladrão é um deles e a editora está pronta para fazer o que for preciso para desmascarar o culpado.

Foi em Paris que nos encontramos com o realizador do filme, Régis Roinsard (A Datilógrafa), que nos falou um pouco da génese do projeto, de como decorreu o casting internacional – onde se inclui a portuguesa Maria Leite – e dos seus novos planos na realização.

Pode-nos dizer como começou este projeto?

Li vários artigos em inglês e francês sobre a tradução do livro do Dan Brown, Inferno, e as coisas foram um pouco como se vê no filme: uma série de tradutores internacionais que foram fechados numa cave para traduzir este livro, para assim ele poder ser lançado simultaneamente em vários países ao mesmo tempo, impedindo a fuga de informação e traduções ilegais.

Li os testemunhos de uma série de profissionais que estiveram lá. Achei aquilo de loucos. O Dan Brown não é o maior artista do globo, mas para traduzir este best-seller confinaram as pessoas. Foi aí que pensei: e se o livro tivesse sido roubado? O que aconteceria?

É inegável a influência do marketing na própria literatura em si e no universo intelectual. O que acha sobre isso?

Sim, influencia completamente. E depende dos países. Por exemplo, nos EUA cada vez há menos livros traduzidos e cada vez há mais best-sellers. Os americanos não conhecem tanto a literatura mundial por causa disso. Em França temos sorte porque ainda temos traduções, o que nos abre a porta a outras culturas. A maioria das vezes isso acontece por razões económicas. Há pessoas que querem ganhar mais e mais. Algumas editoras têm preocupações literárias, mas outras pensam apenas no lucro. Algumas até querem que os livros físicos desapareçam, explorando apenas o digital, pois assim podem fazer mais dinheiro. Por isso, sim. Vemos bem o impacto que o marketing tem no mundo literário e como ele pode colocar em causa o mundo da literatura. Isso é algo que me influencia e que me dá pena. Eu, por exemplo, quero me manter independente e não ter de fazer produtos atrás de produtos.

O filme tem um casting internacional impressionante. Gostaria de saber como foi o processo de recrutamento, em particular no que diz respeito à portuguesa Maria Leite?

O casting durou um ano e eu pretendia ter no filme um equilíbrio de atores conhecidos e outros menos conhecidos. Assim, pedimos a alguns nomes mais conhecidos como Olga Kurylenko e Riccardo Scamarcio para participar no filme. Entregamos o guião e todos aceitaram rapidamente. Depois era preciso eu encontrar bons atores que falassem muito bem francês, para serem credíveis no papel. Fui a alguns países para fazer o casting, e mandei outros – como da Grécia – virem cá. Às vezes temos a ideia que em países da francófila encontramos muitos atores que falam francês, mas não é bem assim. Por exemplo, no caso português, temos atores e atrizes em França e pensávamos que seria fácil. Não foi e não encontramos. Fui a Portugal e foi difícil, pois não encontrava ninguém para ser a Telma. Quando apareceu a Maria Leite, disse logo: é ela, é absolutamente ela que quero para este papel. A Maria é uma grande atriz, alguém muito feminista e politicamente ativa. Isso interessava-me muito para a personagem que ela interpreta no filme. Inicialmente, ela chegou com algum receio, pois tinha menos experiência e estava com atores que participavam em muitos filmes, como o Lambert Wilson, mas toda a gente a acolheu e ela transformou-se. Ela tinha o cabelo comprido e cortou-o. É difícil dizer a uma pessoa para cortar o cabelo, mas ela fê-lo. Eu queria que ela ganhasse um pouco de músculo e ela trabalhou nisso. Ela investiu muito no trabalho. Para além disso, é uma ótima pessoa, o que permitiu com que consolidasse toda a equipa de trabalho.

Foi complicado colocar estes atores no papel de tradutores, visto que muitas vezes estes são apresentados de forma artificial e pouco credível?

Não foi assim tão difícil. Estes atores chegaram uns dias antes das filmagens começarem e não tive de lhes explicar muito como tinham de fazer as coisas. Saiu naturalmente deles.

Estávamos todos fascinados com o filme, com este universo das traduções. Eu ajudei-os a mergulhar nesse mundo. Escrevemos 10-20 páginas do primeiro tomo e resumimos os três tomos do livro. Fizemos eles traduzirem as primeiras 20 páginas. Eles tinham de agir como crianças, a descobrir as coisas. Foi tudo muito sério, mas muito divertido. Foi cansativo, mas sempre num ambiente alegre 

Imagine que o seu filme era “roubado” e colocado na internet antes de ser lançado? Como reagiria? [risos]  

[risos]  Pensaria: “Uau. Que publicidade incrível para o filme seria isso” [risos].

E sobre a casa onde tudo se desenrola – que também funciona como uma personagem. O Dan Brown foi uma inspiração?

Nem por isso. A inspiração veio mais das próprias “caves” em si, do seu ambiente apocalíptico.  Temos muitos milionários neste mundo que as constroem com bibliotecas, quartos, até discotecas às vezes. Isto para o caso da terceira guerra mundial surgir. Vi muitas fotografias dessas habitações e elas inspiraram-nos. Realmente queríamos construir este monstruoso espaço de forma a refletir sobre o espírito das personagens.

Sei que tem um novo filme em marcha, com a Virginie Efira e o Romain Duris. Pode nos falar um pouco dele?

É um melodrama, uma grande história de amor que estou a filmar há uma semana. É a adaptação de um best-seller [risos]. Chama-se En attendant Bojangles (À Espera de Bojangles) e está traduzido em várias línguas, incluindo o português.

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