“Retrato de uma rapariga em chamas” é um dos grandes filmes do ano
Queria ser cantora, mas a timidez afastou-a dessa ideia. Para aprender línguas e ganhar a vida, passou então pela carreira de modelo, mas o mundo da moda não a fascinou – longe disso. “Era um pedaço de carne no mundo da moda“, disse-nos Noémie Merlant, peça chave do novo filme de Céline Sciamma, Retrato de Uma Rapariga em Chamas.
Foi em Paris que nos encontramos com ela e conversamos sobre o filme, a sua (extinta) carreira na moda e as suas deambulações no cinema, onde não é apenas atriz, mas dá os primeiros passos na realização.
Desde a boa receção em Cannes que Retrato de Uma Rapariga em Chamas tem sido muito bem aceite pelo público e crítica. Surpreendeu-a este sucesso?
É uma boa surpresa receber tanto amor, sim, porque é amor. Tenho um grande orgulho em estar neste filme e em ver as pessoas a verem-no e a ficarem contentes com ele. Quando falamos com essas pessoas, elas sentem aquilo que senti a primeira vez que li o guião.
Esta é uma história que ainda não foi contada suficientes vezes e o facto do filme ter nomeações e prémios em todo o mundo é muito bom para que ele tenha mais visibilidade e para que mais pessoas o vejam.
E como foi a colaboração com a Céline Sciamma para construir esta personagem e com a Adèle para chegarem aquela química?
Com a Céline há muitas coisas a dizer. [risos] Ela é muito rigorosa na aplicação do texto do guião e muito focada na criação da atmosfera. Trata-nos com muita gentileza e dá-nos espaço para nos expressarmos. Por isso, embora seja rígida na alteração de algum diálogo, nos movimentos pelo set – afinal temos iluminação natural com velas -, e até nos silêncios (que estão escritos no guião), temos sempre a oportunidade de dizer uma frase, fazer um olhar à nossa maneira. Podiamos propor coisas e até havia flexibilidade na intensidade (ou não) que colocamos nas coisas. Muitas vezes eu pedia um novo take porque queria experimentar outra coisa com mais ou menos intensidade. Estávamos também livres de experimentar outro tipo de movimentos corporais. O diálogo esteve sempre aberto no set das filmagens.
Em relação à Adèle, eu não a conhecia, quer dizer, nunca tínhamos trabalhado juntas e não ensaiamos juntas. Quisemos ter uma colaboração como duas atrizes que se encontravam pela primeira vez como a Héloïse e a Marianne.
Li numa entrevista que está sempre à procura de papéis fortes. É difícil encontrá-los?
Não são fortes no sentido de força, mas sim de relevância. Uma mulher pode ser muitas coisas, mas não quero um papel que seja simplesmente para servir uma personagem masculina: a mulher não como um objeto, mas como um tópico. Isso para mim é muito importante.
Este filme chega numa altura importante, não apenas no cinema, mas em toda a esfera da cultura #MeToo. Acha que o filme foi feito no momento certo?
Sim, foi a altura perfeita. É um filme que se foca em mulheres, mas que é igualmente importante para os homens. É um filme que mostra a necessidade das mulheres fazerem as suas escolhas, da sociedade ouvir a nossa perspetiva das coisas e os nossos desejos. E mesmo que nós decidamos continuar no chamado ‘male gaze’ (olhar/perspetiva masculina), é uma escolha nossa.
Só o facto de eu não ter nunca notado que a sociedade e a cultura comportava-se muito em torno desta visão masculina, explica muita coisa. Que as minhas escolhas ao longo da vida e o meu comportamento foram uma forma de me tentar encaixar nessa visão patriarcal. E só o facto de ter tomado consciência dessa visão e de outra que se assemelha mais a mim, possibilitou-me de ter direito a escolher qual das duas quero seguir.
Antes do cinema trabalhou como modelo, por isso certamente notou que há muito “male gaze” nesse universo?
Precisamente. Quando abandonei a moda sentia que algo estava errado, mas não conseguia identificar o quê. E agora, olhando para trás, tornou-se óbvio.
Mas certamente também foi fotografada por mulheres, ou eram maioritariamente homens?
Quase sempre homens. E sim, sem dúvida, esse é o trabalho mais explicito em que somos objectos.
E essa foi uma das razões porque se tornou atriz e também realizadora? Para ter uma voz?
Sim, completamente.
E este seu trabalho com a Céline, influenciou a sua carreira como realizadora?
Ela fez-me entender que eu posso seguir os meus desejos. Muitas vezes colocamos as pessoas em caixas, estilo: tu és atriz. Ela ajudou-me a sair dessa caixa, desses rótulos. De expor o que penso e quero mais vezes. Há muito que ambicionava experimentar a escrita e a realização, por isso ajudou-me a expandir [o meu mundo].
Como atriz e realizadora, e tendo em conta que o circuito da crítica é maioritariamente masculino, crê que isso influencia igualmente a forma como se veem e avaliam os filmes?
Sim, é em todo o lado. É como a sociedade está organizada e moldada.
E lê frequentemente as críticas? Pergunto isto porque falei há uns tempos com a Laetitia Casta e ela disse-me que não lia, pois ganhou uma “pele rija” com todas as críticas negativas que recebia nos tempos de modelo e depois de atriz…
Tento não ler muito, pois elas podem impedir-me de avançar nos objetivos. É boa uma análise, rever os filmes para ver o que fiz menos bem ou podia ter sido melhor. Gosto de analisar essas coisas, falar com o realizador, etc.
Mas agora que entrou no mundo da realização sabe que a crítica vai estar atenta a si. Sente-se preparada para isso?
Acho que ninguém está, por isso tento me focar completamente no trabalho.

Noémie Merlant
Sempre quis ser atriz quando era mais nova?
Não. Queria ser cantora [risos] E fazia muitos shows em casa [risos]
E ainda tem essa ambição profissional? [risos]
Não, sou muito tímida para cantar em frente de pessoas [risos]
Talvez possa realizar um musical?
Adorava, atuar e realizar um musical. Se puder me esconder atrás de uma personagem, provavelmente poderia cantar.
Falei com a Emmanuelle Bercot que me disse que participaram num filme juntas, o Jumbo. Pode falar um pouco dele?
Jumbo é realizado por uma jovem realizadora, a Zoé Wittock (…) É a história de uma rapariga cuja ligação com a mãe é muito complicada. Jeanne [Noémie Merlant] é um pouco diferente e tem uma grande dificuldade em manter uma relação com a mãe e com as outras pessoas ao seu redor. Ela tem problemas em lidar consigo e com o seu desejo particular. Esse desejo centra-se numa máquina [que ela denomina de Jumbo], um objeto. Ela apaixona-se por ela e tem de lidar e assumir esse desejo perante a mãe e todas as outras pessoas.
E tem ainda na agenda um filme chamado Republique…
Sim, é um filme que usa as novas tecnologias, pois é construído para ser visto numa App de um smartphone. É desenvolvido com base em 3 transmissões ao vivo durante um atentado terrorista. Segues três grupos de pessoas, ligados de alguma maneira, e acompanhas o atentado podendo escolher uma das perspetivas. Tudo em tempo real, podendo aproximares-te da zona do ataque ou afastares-te dele.
E a curta que realizou, chamada Shakira. Está pronta?
Está pronta e espero que ela possa ser mostrada em alguns festivais de cinema.
E tem mais algum projeto em desenvolvimento?
Estou neste momento a editar uma obra que filmei no verão, é cinema guerrilha já que decidi escrever e filmá-lo quase sem financiamento. Filmei-o em 16 dias e agora estou na montagem. Encontrei um produtor para ajudar no pós-produção. (…) não tenho ainda um distanciamento claro sobre o projeto, por isso vamos ver no que vai dar.
Foi difícil a transição de modelo para atriz e agora para realizadora?
Foi difícil, mas muito excitante.
E a Céline inspirou-a?
Completamente, especialmente na forma como compreendia o que eu dizia e como criou todo o ambiente entre todos durante as filmagens.
E o sucesso deste filme e da sua atuação dele, deu-lhe agora mais poder para escolher os papéis no futuro?
Sim e isso é muito precioso. Quanto mais oportunidades tens, melhor. Mais guiões para ler e mais poder de escolha. Ter a hipótese de escolher é uma das coisas mais importantes que podes ambicionar na vida.
E voltando ao mundo da moda, quando trabalhou nela não encontrou ninguém que a inspirasse?
Quando trabalhei nisso nunca tive um estatuto assim tão elevado para trabalhar directamente com um estilista. A maioria das modelos não tem essa hipótese, é estilo uma ou outra de vez em quando. Já foi há muito tempo, mas não. Não me inspirou de todo. As pessoas com quem trabalhei… quando penso bem nisso, foi horrível.
Talvez possa fazer um filme sobre isso…
[risos] A Céline disse-me isso [risos] Para eu fazer um filme ou série de TV sobre o assunto [risos]. Eu era um pedaço de carne no mundo da moda. Uma pedaço de carne jovem.
A parte mais interessante desse mundo não eram as fotografias ou as passerelles, mas sim quando as marcas desenhavam as roupas sobre ti. Esta era realmente a parte artística desta indústria. Na verdade, eu era um objecto, pois não me podia mexer ou falar durante horas, mas olhava para estes estilistas no seu processo de criação e isso era bastante interessante (…) Na verdade, aprecio mais agora os guardas-roupas e os designers do que quando trabalhava no meio.
Na altura não estava na melhor posição para apreciar esse mundo, pois estava sempre preocupada se esta ou aquela peça ia encaixar bem em mim, ou se estava demasiado gorda para ela, se ia perder um trabalho por causa disso. Agora, longe disso, consigo apreciar muito mais as vestes.

