Alpha: Nos Bastidores da Corrupção: “Sempre advoguei a verdade e a honestidade nos meus filmes”, diz Brillante Mendoza

(Fotos: Divulgação)

Alpha: Nos Bastidores da Corrupção estreou esta semana nos cinemas

Juntamente com Lav Diaz, Brillante Mendoza é um dos nomes mais reconhecidos da chamada 3.ª Era de Ouro do cinema Filipino. Com títulos no currículo como Serbis, Kinatay, Lola, Cativos e Sapi, Mendonza regressou a um dos pontos temáticos do seu Mãe Rosa (a forma como as drogas afetam a sociedade) para criar Amo, uma série de 13 episódios executada para a TV5 [Filipina], mas que pode ser vista em Portugal na Netflix.

A série foca-se no programa governamental filipino de luta contra a droga e que até agora levou à morte de milhares de suspeitos de tráfico e consumo de estupefacientes durante as operações policiais oficiais e ações perpetradas por vigilantes. Alpha: Nos Bastidores da Corrupção é a versão filme da série, possuindo as duas produções o protagonismo do ator Allen Dizon.

Presente no Festival de San Sebastián em 2018, Brillante Mendoza falou aos jornalistas sobre a produção, das críticas que lhe fizeram antes do lançamento da série, onde o nome do cineasta, outrora “querido” pela crítica, foi mesmo categorizado como uma ferramenta de propaganda do presidente filipino Rodrigo Duterte.

Influência do governo ou da polícia no guião

Segundo Mendoza, ninguém das forças policiais viu o guião, embora o mesmo admita que falou com o chefe nacional da polícia sobre este projeto, até porque ele desejava contar – entre os atores e figurantes do filme – com a presença de agentes policiais verdadeiros, “uma forma das ações e diálogos vistos no filme e na série ” serem autênticos e reais“.

Estilo documental e ficção

Os meus filmes sempre foram assim, o meu método parte sempre de encontrar uma história. E nisto partimos sempre de uma pessoa real, com uma experiência única, que normalmente nos mostra o que se passa na nossa sociedade. Sempre me interessou a autenticidade, de pessoas normais afetadas pela sociedade.

Situação nas Filipinas e a “caça” aos traficantes

Acontece em todo o mundo o que está a acontecer nas Filipinas e toda a gente tem a sua opinião, mas infelizmente nem toda a gente esteve no país. As pessoas veem as notícias e muitas vezes são exageradas. Sim, há um problema nas Filipinas e até podem existir assassinatos – os quais nunca testemunhei. Mas estas são situações no meu país que tentei sempre retratar nos meus filmes, sem ser político, sem tomar um partido. Como cineasta espero sempre ser fiel com o nosso storytelling, mais centrado no filme do que com uma pessoa ou quem quer que seja. Sempre advoguei a verdade e a honestidade nos meus filmes.

Um ritmo frenético

A forma e estética é familiar aos meus trabalhos anteriores, nas histórias reais, em situações quotidianas verdadeiras. Desta forma, agimos de maneira sociológica, ou seja, a história não fica apenas na pessoa que a viveu, mas envolve toda a sociedade. É uma das maiores características deste princípio das”Found Stories” (histórias encontradas). O que queria fazer era um docudrama, onde existe uma linha muito ténue entre o sentir-se real e o documental. Até a forma como filmamos, como os atores leem as suas linhas, a sua atuação, a cinematografia, a montagem, etc, tudo é pensado para se enquadrar no princípio ‘Found Stories’. Nos meus filmes anteriores, por exemplo, no Ma Rosa, este princípio foi também aplicado. Kinatay, igualmente“.

Atores, figurantes e gente das ruas. Técnicas para conseguir o realismo

Com as pessoas de rua tens de desenvolver uma certa técnica de incorporar figurantes juntamente com elas. Normalmente, procuramos nas agências de figuração cerca de 50 pessoas e juntamo-las a pessoas reais que estão nas ruas. Nas Filipinas temos esta cultura de que quando as pessoas veem alguém a filmar, querem logo aparecer. E quando dizes para eles não olharem para a câmara, eles riem e aceitam. Na Europa isso não seria possível, pois as pessoas iam querer privacidade: Para nós, [esta forma de ser] é algo de bom e facilita muito as filmagens nas Filipinas.

Medo de represálias pelo tom negro do filme

Não estou preocupado com a minha vida, mas este é o meu primeiro filme com este tipo de política envolvida. Fiz uma fita com a Isabelle Huppert [Cativos] sobre extremistas do Abu Sayyaf, que estão no sul das Filipinas. Também fiz o Kinatay, onde ganhei um prémio em Cannes, que abordava um polícia corrupto. Nunca sofri ameaças. Na verdade, não tenho medo. Primeiro, mantenho-me verdadeiro com o meu trabalho e mesmo que o filme possa ser visto como político, situações como estas acontecem. Não me foco particularmente numa pessoa (…) A personagem do Allen, por exemplo, não é representativo da instituição, ou seja, da polícia. É uma situação pessoal.

Receção e crítica

Antes da série ser mostrada, eu já era criticado no meu país por ter filmado o discurso do Estado da Nação (State of the Nation Address). As pessoas sempre me associaram ao presidente das Filipinas, especialmente as da comunidade artística. O discurso do Estado da Nação não tem nada a ver com o que faço em cinema, eles apenas requereram o meu trabalho. Sou um cineasta e neste discurso já estiveram outros cineasta a trabalhar para eles. Por isso, antes do Amo ser lançado, fui criticado – especialmente pelos europeus. Diziam que eu fazia propaganda para o governo. Quando a série estreou, as críticas pararam, pois não estamos perante qualquer tipo de propaganda. Retrato a situação atual nas Filipinas sem silenciar ninguém. De certa maneira, a receção foi boa e recebi mensagens de todo o mundo de pessoas que viram as coisas como uma série e um filme e não propaganda.”

Opinião pessoal e criação de uma obra

A minha opinião sobre o que se passa no nosso país está separada das ideias do filme. Não quero que a minha opinião pessoal, a minha filosofia, esteja presente, pois aí sim o filme tornar-se-ia propaganda. Como disse, Alpha: Nos Bastidores da Corrupção é um relato da situação. A minha opinião pessoal guardo-a para mim e nunca quero que ela seja uma influência nos meus projetos“.

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