O cineasta está em San Sebastián para apresentar Thalasso
O cenário é um Spa, um centro de terapia de luxo na zona costeira de Cabourg. Aí, Michel Houellebecq e Gérard Depardieu recuperam. Tudo é tratado num registo documental numa linguagem muito próxima da Reality TV. A dupla de “enfants terribles” parecem estar mesmo a ser eles próprios, mas tudo… absolutamente tudo por aqui é ficção. “Não houve qualquer improvisação, está tudo no texto“, explicou Nicloux ao C7nema.
Esta conversa com o cineasta decorreu sem grandes atribulações, até que a meio da entrevista saía a notícia da morte do antigo presidente francês Jacques Chirac. Fui eu mesmo o mensageiro da novidade, à qual Nicloux respondeu com espanto, uma longa pausa e um: “É a vida… Creio que a imprensa internacional hoje tem muito que escrever“. Recorde-se que a transição do governo de François Mitterrand para o de Jacques Chirac, e o famoso caso Gordji, teve direito a um telefilme assinado pelo cineasta em 2012: L’Affaire Gordji, histoire d’une cohabitation.
Antes da notícia da morte de Chirac, o realizador comentou uma frase que aparece no seu Thalasso, registo cinematográfico semelhante a O Rapto de Michel Houellebecq, mas agora com Depardieu à mistura, a debitar frases como: “fiz um ménage-á-trois com o Muhammad Ali” ou “nos anos 70 dormíamos com toda a gente, era diferente“.
Num determinado momento, quando as duas figuras controversas estão sentadas a tagarelar sobre tudo e sobre nada neste Thalasso, um homem aproxima-se e diz que ambos são a desgraça e um embaraço para França. Quando questionado pelo c7nema sobre esse momento, Nicloux solta a frase que dá título a este artigo: “quem me dera ser a vergonha da França“. Prosseguindo, o realizador diz que essa afirmação é algo de “bom” pois provoca uma reacção, talvez de raiva, rejeição. Esses sentimentos estão dentro de uma pessoa e são sensações que não sentimos quando não estamos zangados com alguém em particular. De certa maneira, o Michel e o Gérard estão orgulhosos de ser um embaraço para a França, pois é uma reacção de pessoas que têm na realidade esse embaraço dentro de si próprios e o soltam. O cineasta considera ainda que se sente ainda bastante afortunado, pois Michel já não dá entrevistas e Gérard cada vez menos. “Entrevistei os dois“, disse entre risos.
Presente na competiçao à Concha de Ouro, Thalasso é uma obra carregada de humor, transformando Michel e Gérard numa espécie de Oliver e Hardy (Bucha e Estica) ao serviço de Nicloux.

