José Barahona e a urgência de «Alma Clandestina» nos dias de hoje

(Fotos: Divulgação)

Foi na Cinemateca que me encontrei com o realizador José Barahona e com a produtora Carolina Dias. A dupla, que trabalhou no documentário Alma Clandestina, falou sobre o projeto que depois de passar pelo DocLisboa terá estreia comercial em sala.

Este “híbrido” – um documentário que recorre ao arquivo, mas com uma ponta de ficção e registo teatral -tem como ponto de partida Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976), também conhecida como Dorinha, uma estudante de medicina, idealista e resistente contra a ditadura militar que se impôs no Brasil. Um objeto fílmico que ganha novos contornos agora que no Brasil se tenta branquear esses mesmos tempos da ditadura.

Um trabalho “urgente” que rendeu ao cineasta algumas das melhores críticas da sua carreira e que marcou emocionalmente todos os festivais por onde passou.

José, o que é o aproximou, o levou à história da Maria Auxiliadora?

Morei no Brasil durante cinco, seis anos e há mais de dez que trabalho muito lá. E já me tinham feito várias propostas para trabalhar em coisas sobre a ditadura, temas relacionados com a ditadura brasileira, mas nunca me senti muito autorizado a fazer esse tipo de filme lá. Mas houve um jornalista, que é o Jorge Melo, que também é coargumentista do filme, que me desafiou com a ideia. A ideia de fazer o filme foi dele. Tendo o suporte dele, sabendo a sua ideia, li sobre a Maria e achei que, juntamente com ele, que é historiador e jornalista, e que conhecia bem a história dela (embora ao longo do processo se descobrisse mais coisas) estava muito próximo das coisas que têm a ver com a ditadura.

Os meus pais são de uma geração que lutou contra a ditadura aqui em Portugal. Eu já tinha feito uma curta-metragem, há muitos anos, em 2004, que foi escrita pelo Mário de Carvalho, o escritor, que se chamava Quem é Ricardo?, a qual aborda a tortura do sono. Uma ficção baseada na experiência dele, mas ficção.

Estes são temas que me são caros, não tanto a ditadura mas a luta pela liberdade, que é o que mais me interessa. Assim, esta história pareceu-me fascinante, esta personagem pareceu-me logo fascinante quando o Jorge falou-me dela. Achei que era uma boa oportunidade estando lá e que este era o momento. O projeto já tem muitos anos, mas quando começamos a trabalhar realmente nele, foi na época em que começaram a colocar em questão a Dilma [Roussef]. Foi a época do Impeachment, do julgamento e da condenação do Lula. Por isso, achava que era um filme muito urgente, que tinha de sair cá para fora. E depois disso, ainda ficou mais urgente.

Sim, porque agora existe um branqueamento total do tempo da ditadura brasileira

Quando achamos que as coisas no Brasil não podem ficar piores, ficam sempre piores. Por isso, estes filmes agora são muito importantes porque essas pessoas acham que isto não é ditadura. No fundo, essas pessoas são muito irresponsáveis, muito ignorantes e se vivessem naquela época estariam ao lado dos ditadores a cometer atrocidades.

Quanto ao formato, porque escolheu este formato, já que podia atingir mais público de outra maneira? Porque optou por esta forma, que podemos chamar de “híbrido”, pois não é bem um documentário de arquivo, mas que também tem essa componente?

Havia muito material de arquivo, existiam filmes de arquivo muito bons, com imagens dela e ela está muito bem neles, mas aconteceu uma coisa curiosa.

O Jorge quando me enviou o roteiro, enganou-se e enviou-me uma peça de teatro que tinha escrito. E quando me enviou a peça de teatro, eu respondi: “olha, deves-te ter enganado, pois isto é uma peça de ficção”. Ele depois lá disse, “pois foi, enganei-me”. Depois, um dia, fui ler a peça e pensei que aquilo era muito giro, muito interessante, pois assim podiamos especular um bocadinho sobre certos aspetos da vida da Dora que não conheciamos bem. Ao ficcionalizar uma atriz que estava à procura, o que já foi uma invenção minha, dava-nos uma liberdade de falar de coisas que não estão 100% dentro daquilo que aconteceu. A peça dele não era um monólogo, tinha vários atores, tinha várias personagens e eu tornei-a num monólogo, tirei as personagens e ficou só o encenador. Resolvi baralhar as cartas todas e dar de novo. Não filmei as partes da peça de forma cronológica, porque já sabia que não as ia usar nessa ordem. Depois fui colocando num quadro na parede todos os eventos da vida da Dora de forma cronológica e fui baralhando novamente. Ver qual seria a melhor ordem. Isto porque estávamos a falar de uma pessoa com uma mente muito complexa. Daí que tentei que o filme fosse um reflexo da mente complexa, embora brilhante, da Maria Auxiliadora. Ou seja, para ela as coisas não eram lineares, como o tempo no filme não é linear.

É um daqueles casos em que o guião fechou-se com a montagem?

Completamente. Eu nunca escrevi completamente tudo, menos esta ordem na montagem. Esse também foi um dos motivos porque fui eu que montei o filme.

E a escolha da atriz, a Sara Antunes. Como isso se processou?

Fiz um casting e a Sara foi extraordinária e tinha muita vontade de fazer a Dorinha. De uma cena que lhe enviei, ela viu que havia projeções e veio fazer o teste. Fez um teste excelente, trouxe um projetor. com imagens e uma série de coisas. E realmente foi a atriz mais forte. Nós vimos quatro ou cinco, não vimos muita gente e quando chegamos ao fim achamos que a Sara estava muito bem. E principalmente estava com muita vontade. Quando uma pessoa está com muita vontade é mais que meio caminho andado para as coisas resultarem. E resultou num mergulho emotivo e sensorial muito forte.

Aproveitando que está aqui a produtora, foi fácil arranjar os meios, em termos de financiamento, para fazer o filme? Como é que isso se processou?

Carolina Dias – Lá o filme teve financiamento do Fundo Sectorial do Audiovisual e foi financiado no Brasil para a televisão, um documentário para TV. Eles têm uma linha de financiamento que é mais voltado para longas-metragens documentais para a televisão. Então apresentamos o projeto para um canal de TV por cabo, eles gostaram, e deram um contrato de licenciamento que fez com que o fundo entrasse com os recursos.

JB- É um bocadinho como aqui, quando vamos à RTP, o canal diz que quer, dá um contrato e nós vamos ao ICA. Um processo semelhante. Foi um processo relativamente fácil, mas moroso. A burocracia no Brasil é muita.

E agora ainda vai ser pior?

Agora não é a burocracia, mas a burrocracia (risos). Está tudo parado mesmo, não é burocracia, apenas tudo piorou. São mesmo eles que querem parar o sistema de audiovisual. É importante que se diga: nós podemos criticar muita coisa, embora ache que cada vez devemos criticar menos, na política passada dos governos PT. Isto porque estamos a ver coisas tão más desde que o PT saiu do poder, que afinal o PT era uma maravilha.

Mas isso às vezes é também o elogio da mediocridade, não?

Não. Não creio nisso. Por exemplo, no audiovisual realmente – e noutras coisas também – eles construíram um sistema bastante melhor que o português e que funciona muito bem. Têm uma lei do mecenato que nós não temos aqui a funcionar para o cinema. Então, realmente, não foi um caso de descer muito baixo e de agora descer ainda mais. E mesmo noutros níveis, eles [governo PT] construíram coisas boas que achávamos que eram normais.

Sim e isso repara-se na repercussão do cinema brasileiro agora nos festivais. Temos o Bacurau em Cannes, em Berlim estiveram outros. Ou seja, essa presença é um reflexo dessa política de há vários anos. O problema é que provavelmente daqui a 2 ou 3 anos não vai haver nada por causa do que se está a fazer politicamente agora…

Ou não está a ser feito.

Então, neste momento, e no que diz respeito ao Brasil, está parado em produções?

JB- Não está parado porque… Isto no cinema, os filmes levam muito tempo. Nós tivemos financiamento para o Nheengatu há um ano. 

CD- O Nheengatu ganhou um edital (concurso) em 2015. Nós soubemos no início de 2016…

JB- Que é o filme onde eu estou a trabalhar agora. Em julho do ano passado ganhamos alguns outros concursos e filmei esse projeto na Amazónia e agora estou a montar. Portanto, ainda continuo a trabalhar para o Brasil. O Alma Clandestina é uma produção 100% brasileira. Este próximo filme não tem o ICA, mas já tem a RTP.

E é um documentário? De que trata?

Sim, é um documentário. É sobre uma língua que se chama Nheengatu, que é uma lingua indigena, mas que nasceu depois de 1500. Ela nasceu porque os portugueses aprenderam Tupi-Guarani, que era a língua que se falava na costa. Quando os portugueses foram entrando no território brasileiro foram levando essa língua e adaptando às outras tribos. E tornou-se uma língua franca. No século XVI e XVII era uma das línguas mais faladas no Brasil. É algo que se sabe pouco, até o Marquês de Pombal expulsar os jesuítas e proibir a língua, pois estava a perder o Brasil por causa dela. E existe um território no nordeste da Amazónia, que é dez vezes o tamanho de Portugal, onde esta língua é das mais faladas.

Ou seja, é mais um filme relevante na atualidade política brasileira pois temos esta coisa de hoje em dia se falar muito do “assalto” aos territórios indígenas por parte deste governo?

Eu acho que sim, embora não seja diretamente político. Mas estamos ali num vasto território onde se percebe a vastidão da Amazónia e o valor incalculável que tem em termos ambientais.

Mas voltando ao Alma Clandestina, como foi a reacção ao filme nos festivais que passou?

A reacção do público foi muito particular, pois o filme estreou aqui no Doclisboa na sexta-feira antes da segunda volta das eleições brasileiras. Fizemos uma espécie de manifestação de apelo ao voto contra o Bolsonaro. Na Mostra de São Paulo, ele foi exibido na segunda-feira depois das eleições, na ressaca da vitória do Bolsonaro. O filme foi sempre bem recebido e com muita emotividade, obviamente em situações completamente diferentes. Mas é sempre um filme que emociona muitas pessoas.

Em termos de crítica, as que têm saído têm sido muito boas, quer no Brasil, quer em Portugal. Aliás, em Portugal, acho que tive a melhor crítica que já tive até hoje. No Brasil … Eu quando fui para o Brasil os meus filmes começaram a ter mais sucesso lá que aqui…

Por acaso, era isso da crítica que lhe ia perguntar. É alguém ligado ao cinema que valoriza a crítica cinematográfica e que aprende com ela?

Eu acho que a gente aprende sempre com tudo, mas é importante não se deixar afetar pelas críticas negativas. Algumas, realmente, temos de ler e aprender se alguma coisa faz sentido. Há algumas críticas, desculpe-me dizer isto, aliás, é perigoso eu dizer isto, que são só destrutivas, ou complicadas, e não aprendemos nada com elas. Não chegamos a aprender alguma coisa com algo não construtivo.

Nós temos de fazer o nosso trabalho independentemente das críticas. Claro, podem me dizer alguma coisa os críticos ou os espectadores…

E neste caso específico, este é um filme com um certo cariz político. A visão política de quem escreve também influencia a crítica…

Com certeza. O momento e a ideologia de quem escreve, influencia a crítica. Isso nota-se normalmente naqueles críticos que não abordam tanto o filme, mas sim o seu conteúdo. É algo que está lá escrito, como “o filme importante que emocionou a plateia“, mas não explicam porque ele é bom.

Por acaso, este filme teve algumas críticas que explicavam porque era bom. E alguns críticos disseram-me porque achavam o filme interessante. O Rodrigo Fonseca, por exemplo, que é um crítico brasileiro, disse-me que este era o meu filme mais maduro do ponto de vista narrativo; que eu conseguia dominar a narrativa de trás para a frente. Isso é algo construtivo. E ele até podia ter dito o contrário, como: “espalhaste-te ao comprido“. Se calhar eu iria absorver isso.

Há filmes que eu fiz em que eu próprio não fiquei contente. O melhor filme é sempre o próximo, mas há filmes que agora olho para trás e digo: “realmente, naquele filme meti os pés pelas mãos“.

Para além desse documentário, tem mais algum projeto?

Tenho um filme já bastante desenvolvido que se chama Náufragos, que é a história de um navio negreiro no final do século XVIII, nas vésperas da abolição da escravatura no Brasil. É uma história que tem alguns anos, escrevi-a e depois convidei o José Eduardo Agualusa, porque ele conhece bem essa época, conhece bem a escravatura. Estamos os dois a escrever em conjunto. O naufrágio do navio negreiro dá-se numa ilha deserta, na qual senhores e escravos tentam sobreviver. Só que, a determinado momento, os escravos estão em maior número e a situação de poder inverte-se.Isso vai depois gerar uma série de situações que certamente depois vai poder ver, espero eu, em breve.

Também tenho outro projeto, o Voltar. Um filme sobre o 25 de abril, mas faz uma grande elipse a essa data. Tivemos apoio ao desenvolvimento, escrevi-o com a colaboração de um escritor português que é o Possidónio Cachapa, embora ele tenha tido uma participação mais pequena que o Agualusa no Naufrágio. Este projeto também está praticamente escrito.

Estamos a falar de longas metragens, certo?

Sim, longas metragens de ficção.

Agora falando das novas plataformas e a sua relação com o cinema, como é que as vê? Acha que vão matar o cinema ou ajudar certos autores que não conseguem trabalhar na 7ª arte devido à cultura mainstream de blockbusters estar muito focada nos super-heróis?

Nós já não sabemos bem o que é o cinema mainstream nas salas de cinema. Nós estamos aqui na Cinemateca, isto teoricamente para nós seria o cinema mainstream. Mas no VOD e nas plataformas de streaming, o mainstream também está lá.

A experiência para um cineasta e para um espectador de cinema é numa sala, aliás, quanto maior e melhor for essa sala, em termos de som e imagem, melhor. Mas, eu há muito anos, quando isto começou, pensei: “tenho imensos filmes que fiz em 2000, 2004 (…) e de vez em quando alguns deles são vistos. Tira-se de uma gaveta e vai-se fazer uma sessão. No outro dia fiz uma sessão do Vianna da Motta; tenho um filme que fiz sobre a Guiné na guerra colonial que alguém pede. Ele está na internet, eu envio o link, ou então encontram em VOD“.

Há uns anos, quando começou esta possibilidade, pois na altura ainda era uma possibilidade remota, que eu nem sabia como podia ser executada tecnicamente, senti que esta era uma boa maneira de colocar todos os meus filmesdisponíveis.

E até de os preservar…

Sim, essa também é uma ideia, pois acho que este problema do digital, dos filmes não “existirem”, mesmo aqui na Cinemateca, vai ser um problema. Daqui a 50 anos, tudo bem. Daqui a 100 anos, começa a ser complicado. Daqui a 200 anos, muita coisa se vai perder. Houve uma altura em que comecei a falar com colegas meus, a tentar organizar uma espécie de plataforma que na altura não existia. Isto foi já há uns anos. Foi algo como: “quem é que tem aí filmes na gaveta? Vamos nos juntar e colocá-los online e vender por um preço simbólico”. O que acabou mais ou menos por acontecer, com o Netflix e outros. Claro que os nossos filmes não estão na Netflix, mas existem outro tipo de plataformas mais viradas para o cinema de autor, documentários, curtas-metragens, etc.

Por isso, não acho que o streaming vá matar o cinema, muito pelo contrário. Agora, poderá reduzir de alguma maneira a forma que mais gostamos de ver os filmes. Mas não acredito que mate a Cinemateca, não acredito que mate todas as salas de cinema. Não acredito nisso.

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