Depois de ganhar uma distinção na Un Certain Regard em Cannes pela coragem e conquistar o Lince de Ouro no Fest Novos Realizadores | Novo Cinema, “La Civil” (A Civil) chega agora aos cinemas comerciais .
Nesta sua primeira longa-metragem, que inicialmente foi pensada como um documentário, a romena Teodora Mihai leva-nos ao México para contar a história de uma mãe que vê a filha ser sequestrada. Pago o resgate ao gangue que a raptou, a jovem nunca retorna, permanecendo sempre no ar a dúvida sobre o seu paradeiro. Com a inércia da polícia e do seu ex-marido, esta mulher (interpretada por Arcelia Ramirez) parte em busca da verdade, fazendo um estranho pacto com os militares na guerra contra os cartéis.
Um filme duro, violento e extremamente reflexivo sobre a realidade mexicana atual e que se encaixa num outro conjunto de obras locais (Nova Ordem; Noche de Fuego; Nudo Mixteco; The Hole in The Fence; e La Caja) que mostram a delicada condição da população no país. E um projeto que conta com a produção de nomes como Michel Franco, Cristian Mungiu e dos irmãos Dardenne.

“Não acho que a violência seja algo herdado culturalmente. Não vou entrar em geopolítica, mas existe muito mais envolvido que aparenta”, disse-nos a realizadora Teodora Mihai em Cannes sobre a realidade que tenta mostrar no seu drama de suspense. “A guerra às drogas, declarada em 2006 pelo presidente Felipe Calderón, levou a uma quebra generalizada da qualidade de vida das pessoas no país. Foi aí que a violência começou a fazer parte do quotidiano e as pessoas começaram a sair de casa sempre com o medo que poderia haver um tiroteio algures(…) Antes dessa guerra às drogas havia uma espécie de código de honra em que os cartéis não se metiam com os civis. Mas agora os civis estão no meio da guerra entre estas duas forças, os narcotraficantes e as forças da lei.”
Inicialmente pensado como o documentário, a realizadora optou antes pelo registo da ficção pelo perigo que a temática representava para quem daria o rosto no seu filme, e também para aqueles que estava atrás das câmaras: “Num documentário teríamos de filmar pessoas, mencionar um cartel específico, políticos, etc. Se fizesse isso, claro que poderia ficar em sarilhos. A minha ideia inicial era fazer um documentário. Fiz um longo processo de investigação, de quase três anos e meio, mas achei que isso não seria a melhor forma de falar do assunto. Depois de duas semanas de filmagens, numa região que era bastante perigosa, senti que não tinha a liberdade de dizer o que queria. A história envolve tanta informação sensível que é um assunto tão complexo que teria de me auto-censurar, colocando em perigo algumas pessoas. Por isso decidimos colocar toda a nossa investigação num filme ficcional coerente, com a ajuda do escritor Habacuc Antonio De Rosario, que é do norte do México e conhece bem a situação. Ele aceitou escrever um guião em vez de um livro sobre o assunto. (…) No meu estilo de filmar gosto de manter um alto nível de suspensão de descrença. O Godard disse e acredito nisso que as melhores ficções são documentários e os melhores documentários são ficções. Este género de fusão, esta impossibilidade de catalogar as coisas acho muito fascinante.”

Já a opção de focar a sua atenção na personagem da mãe sentiu-se orgânica para a cineasta, que taxativamente nos explicou: “Queria contar esta história a partir do ponto de vista desta mãe torturada pela situação de ter perdido a sua filha e não fazer ideia do que se passou. Não tinha interesse em mostrar o ponto de vista de todos os intervenientes. Esta era a sua história, a sua psicologia perante todo este pesadelo. (…) Trabalhamos muito na narrativa, nas dualidades. O meu coargumentista é tremendo a trazer temas para discussão e criar camadas de profundidade. Era muito importante ter estas personagens muito humanas, em ambos os lados da barricada. Elas não são caricaturas. Precisamos ver que há motivações, que em ambos os lados estão pessoas com famílias, sentimentos. Até a personagem do Puma quer melhores condições para a sua família. O narcotráfico dá-lhe uma oportunidade de ganhar dinheiro com facilidade. É complexo. Ele mesmo também tem uma mãe que sofre quando o levam. Sim, ele é o vilão, mas o sentimento da sua mãe perante ele é válido.”
Segundo Mihai, um dos maiores problemas em jogo nos dias que correm é que “a própria sociedade está a desmoronar-se” devido ao individualismo. “Todos têm a sua agenda”, diz-nos, acrescentando que se repararmos, todas as ações das personagens são em nome da família: “O Don Quique por causa do filho, a Cielo por causa da sua filha, o Puma também pela filha. Todos têm a sua razão para fazerem o que fazem em detrimento do próximo. Isso é preocupante enquanto sociedade”.

