Estreado este ano na Un Certain Regard de Cannes e presente na Horizontes Latinos de San Sebastián, “Noche de Fuego” marca o regresso (fulgurante) de Tatiana Huezo Sánchez, cineasta que depois dar nas vistas com a curta “Tiempo cáustico” (1997) e com as longas-metragens documentais “El lugar más pequeño“ e “Tempestad“ (2016), entra no terreno da ficção de longa duração com um dos filmes mais duros e poderosos do ano.
E num ano em que San Sebástian foi literalmente invadida por produções “made in Netflix”, acaba por ser curioso que a mais fascinante e soberana de todas não seja uma daquelas que carregam o selo “original”, pois “Noche de Fuego” foi apenas adquirida após a estreia cannoise.
Ficção com um olhar realista que nos aproxima algumas vezes do cinema documental, “Noche de Fuego” foi uma verdadeira “noite de lágrimas” na sua passagem por Donostia, sem nunca precisar pelo terreno da manipulação emocional. E tudo pela forma humana, delicada e reflexiva, aliada a uma cinematografia deslumbrante e uma montagem que mantém a intriga num ponto de permanente ebulição, sobre a escravatura moderna e o terror permanente de um pequeno povoado nas montanhas mexicanas que tem de lidar com a dureza de estar no meio de uma guerra violenta entre o estado e o narcotráfico.
Os cartéis comandam as operações, dominam a área, e as tropas tomam várias vezes de assalto o local. A pobreza e a falta de trabalho obriga as mulheres locais a laborarem nas plantações de papoilas, naquilo que podemos chamar a fase 1 da linha de montagem do tráfico de drogas internacional.
Se a toxicidade dos produtos químicos frequentemente atirados para os campos de cultivo por helicópteros militares os sujeita a um infindável rol de problemas de saúde e subsistência, o pavor provocado pelos cartéis de drogas, que frequentemente raptam mulheres da localidade, levam o povoado a um estado de sítio permanente, sendo as jovens presenteadas com cortes curtos de cabelo para não chamarem a atenção, e a terem de se esconder em esconderijos no subsolo. A escola parece ser, por aqui, o único local onde se encontra alguma paz e “normalidade”, isto enquanto ao longe se observa a destruição da paisagem natural através de ações de mineração que servem como único escape laboral (além dos cartéis) para os homens.
Huezo conta toda uma história comunitária de forte componente política e social, partindo de dois focos relacionais: o da pequena Ana com as suas duas melhores amigas, e o de Ana com a mãe, minado de aparente opressão/super proteção, que progressivamente vai sendo revelada/explicada à medida que os anos passam e a criança vai-se tornando em adolescente.
Nenhum outro filme em San Sebastián foi tão duro de assistir como “Noche de Fuego”, o qual comprova o que há muito se suspeitava: Tatiana Huezo Sánchez é mesmo um talento que merece atenção global, produzindo um coming-of-age devastador, mas que no meio da tragédia nunca se esquece de a espaços mostrar a magia, alegria e ingenuidade infantil que aos poucos se dissipa e transforma crianças em adolescentes, e estes em jovens adultos num curtíssimo espaço de tempo.



















