“The Dark Knot at the Center”: ecos lusitanos em Nova Iorque

(Fotos: Divulgação)

O cinema português marca presença no Festival de Tribeca, em Nova Iorque, através da estreia mundial da curta-metragem The Dark Knot at the Center, da realizadora lisboeta Inês Pedrosa e Melo. A obra integra o programa de curtas Whatever It Takes da edição de 2026 do certame norte-americano, um dos mais prestigiados eventos cinematográficos dos Estados Unidos, fundado por Robert De Niro, Jane Rosenthal e Craig Hatkoff há 25 anos, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

A curta será exibida em duas sessões oficiais, ambas com a presença da realizadora e dos produtores: a primeira no dia 7 e a segunda no dia 13 de junho, no Spring Studios, em Manhattan. Trata-se de mais um passo relevante na crescente internacionalização da carreira de Inês Pedrosa e Melo, cujo trabalho tem vindo a circular por festivais na Europa, na América do Norte e na América do Sul.

The Dark Knot at the Center revisita uma página pouco conhecida da história dos direitos reprodutivos nos Estados Unidos. Ao assumir a forma de road movie documental, o filme percorre as paisagens do sudoeste norte-americano e reconstrói as viagens clandestinas realizadas por centenas de mulheres que, nas décadas de 1960 e 1970, atravessavam o país para aceder a abortos em clínicas informais situadas junto à fronteira entre os Estados Unidos e o México.

A obra inspira-se num vasto conjunto de cartas enviadas à Society for Humane Abortion e à Association for the Repeal of Abortion Laws, organizações sediadas em São Francisco que defendiam o acesso ao aborto seguro antes da histórica decisão Roe v. Wade. Através desses testemunhos, o filme recupera histórias de vulnerabilidade económica, ambições profissionais interrompidas, relações afetivas difíceis e momentos de afirmação pessoal, estabelecendo pontes entre o passado e os debates contemporâneos em torno dos direitos reprodutivos.

Segundo a realizadora, o projeto nasceu da vontade de transformar esse arquivo epistolar num espaço de memória viva. Combinando excertos das cartas, interpretações de atrizes e imagens captadas nos mesmos locais por onde passaram muitas dessas mulheres, o filme reflete sobre os ciclos históricos de repressão e libertação que continuam a marcar o acesso aos cuidados de saúde reprodutiva.

Doutoranda em Cinema e Media Digitais na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, Inês Pedrosa e Melo desenvolve uma filmografia centrada nas dimensões individuais e coletivas do trauma, recorrendo frequentemente a estratégias híbridas entre documentário, arquivo e experimentação formal. Em 2022, a sua curta Home, Revised conquistou o Prémio Fernando Lopes para Melhor Primeira Obra Portuguesa no Doclisboa. No ano seguinte, foi uma das dez cineastas selecionadas para o programa Future Frames, da European Film Promotion, apresentado no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary.

Filmado em vários pontos do Arizona, da Califórnia e do Texas, The Dark Knot at the Center resulta também de uma colaboração internacional que envolveu a produtora norte-americana Vacationland Films.

A seleção para Tribeca reforça a visibilidade internacional do cinema português contemporâneo e confirma o reconhecimento crescente de uma nova geração de realizadores nacionais nos principais festivais do circuito mundial. O evento nova-iorquino decorre até 14 de junho.

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