O ritmo e o caleidoscópio de emoções, sufocadas por um arranjo visual e sonoro repleto de distorções, são grandes mais valias estéticas (que contam a sua própria história) no novo filme do realizador de “Johnny Mad Dog” (2008) e “A Prayer Before Dawn”, o gaulês Jean-Stéphane Sauvaire.

Dando uma luz, cor e ambiente a Nova Iorque como se estivéssemos numa das diferentes reencarnações da Gotham City de Batman e Joker, Jean-Stéphane leva-nos ao universo negro e frágil dos paramédicos na cidade, apresentando um emaranhado de situações que afiguram pela frente a Ollie (Tye Sheridan), um novato nestas andanças, normalmente acompanhado no trabalho pelo veterano Gene Rutkovsky (Sean Penn).

Viagem por vielas, passeios e apartamentos e outros equipamentos obscuros, muitas vezes minados pela violência dos gangues, a dupla tem de lidar com inúmeras emergências médicas, enquanto tentam manter a mente sã para poderem lidar com a sua vida fora do trabalho). Isso mesmo mostra-se, uma tarefa insuportável, tal o rol de situações sombrias que vivem quotidianamente, por entre inúmeras tragédias diárias, deixando-os psicologicamente corroídos, dificultando assim qualquer tipo de relação no exterior da ambulância que conduzem diariamente.

Chamar negro ao filme de Jean-Stéphane soaria redundante, mas a força e vulnerabilidade que quer Tye Sheridan, quer Sean Penn, impõem nas suas personagens carregadas de mazelas psicológicas leva-nos para o campo do trauma, com reflexos imediatos nas suas vidas. Claro que existe sempre a sensação que já vimos uma dupla destas no grande écrã, especialmente quando os dois começam uma relação de amizade a partir da convivência laboral, mas muitos dos clichés deste género de filmes e parcerias foram claramente desconstruídos para nos entregar uma autenticidade rara.

E ao contar a história dos paramédicos e dos seus pacientes, Jean-Stéphane faz também um retrato social e humano de Nova Iorque, de noite e de dia, servindo assim igualmente como um trabalho de mapeamento, geográfico e sociológico, com valor além do cinemático.

O cinema e a TV têm perdido algum tempo a explorar objetos na linhagem de “Cidade de Asfalto”, como “Bringing Out the Dead” de Martin Scorsese, mas nenhum de ficção se sente, respira e transpira tão bem a dureza física e mental da profissão, sendo este assim um objeto de imersão psicológica que vai além dos casos e explora os efeitos em quem lida com eles.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
black-flies-fracturas-psicologicas"Black Flies" sente, respira e transpira a dureza física e psicológica da profissão