Jamie Foxx, Joseph Gordon Lewitt e Dominique Fishback são o tridente protagonista de mais um caso extremo das limitações criativas dentro dos thrillers de ação que piscam os olhos ao cinema de super-heróis, mas não o são. Tal como o recém estreado “The Old Guard“, o filme parte de chavões e superpoderes (a imortalidade no caso do filme de Charlize Theron) para entregar um objeto de ação rotineiro.

Por aqui temos um previsível ensaio a três actos que usa os super-poderes como o resultado de uma nova droga que se vende nas ruas de Nova Orleães, essa cidade norte-americana frequentemente abandonada pelas autoridades (Furacão Katrina, etc), pelos homens de fato (o governo central) como alguém diz a certo ponto. Essa droga tem alguns contras, como o facto de apenas ter o efeito durante 5 minutos, isto se entretanto não explodirem pelo caminho. E é no meio desta mixórdia (drogas, super-poderes) que um polícia (Joseph Gordon Lewitt), um ex-militar (Jamie Fox) e uma miúda (Dominique Fishback) se vão cruzar e entrelaçar sob as ordens de Henry Joost e Ariel Schulman para combater a fonte de tráfico dessa substância nebular.

A dupla de cineastas – que deixaram a sua marca no cinema com “Catfish” e seguiram para a serialização mercantil da franquia “Atividade Paranormal” –  parece por aqui fora do seu ambiente e o resultado das suas decisões técnicas e narrativas – de fuga aos clichés regionais – tem logo um resultado óbvio de despersonalização do espaço onde a ação decorre, que poderia também ele funcionar como uma personagem. Repare-se que normalmente o cinema usa  marcas muito distintas (signos que em sobreuso se tornam clichês) quando entra em Nova Orleães: o jazz, os ritualismos, a espiritualidade, a herança afro-caribenha, e evidentes marcas geográficas (pântanos misteriosos, ruas de traçado clássico fundidas com o mais moderno), etc. Aqui, para o bem e para o mal, a dupla retira essas marcas semióticas e o resultado é uma universalização despersonalizada (sabemos que é Nova Orleães, mas podia ser outro sítio qualquer) de um lugar com marcas antropológicas e geográficas distintas e muito particulares.

O segundo elemento a ter em conta é a opção – também ela de universal – das marcas do cinema de ação movido pela “perda” e a busca altruísta pela justiça. Foxx está metido nisto para recuperar um familiar e fazer justiça, Lewitt para defender a sua cidade (sem poder acreditar no governo central), e Fishback presa num sistema competitivo oleado que a oprime e a leva a tomar decisões ilegais para conseguir ajudar a mãe. A sensação de western urbano em tempos de superpoderes e problemas de toxicomania (os EUA vivem um drama dos opiácios) poderia ser aproveitado pela dupla para construir algo sólido e ímpar, mas o que assistimos é uma verdadeira rapsódia de perseguições, tiroteios, lutas corporais (muito “Gun Fu“) e explosões que se dizem espetaculares, mas que se sentem recicladas (made in anos 90) com eternos tiques de mutantes de “X-Men” e outros produtos Marvel. Veja-se por exemplo o momento em que um dos que acede à droga – que dá um poder diferente a quem a toma – se transforma numa espécie de Tocha Humana, ou outra cujo superpoder libertado a aproxima de uma “Rainha do Gelo”. E, mais uma vez, como em “The Old Guard“, a fraqueza, bizarria e “cartoonização” pouco elaborada dos vilões retira a força aos heróis e à sua missão, tornando toda a experiência num objeto pressentível, onde não falta ainda mais uma dose de paranóia de ultravigilância perante cobaias humanas.

Finalmente, e chegando ao ponto unificador, chega a razão de tudo isto ser assim como que executado sobre papel vegetal. Construído por e para uma plataforma global, a Netflix, à universalização do espaço e personagens acrescem sequências de ação e técnicas globalmente aceites como padrão de espetacularidade (slow-motions videoclipeiros, bullet time pós-Matrix com fartura), conseguindo-se assim mais um filme que procura agradar às massas numa era de superpoderes nivelados por um “copy-paste” algorítmico. 

O resultado final é mais do mesmo, mas essencialmente uma tentativa – como “The Old Guard” e “Bright” – de criar franquias por parte da Netflix, não só para combater o que os estúdios tradicionais oferecem nas salas de cinema (sequelas, remakes e sagas intermináveis que se assemelham a temporadas da TV), mas igualmente ter armas para lutar contra com a Disney+ (e os produtos Marvel) e a HBO Max (com a DC).

Pontuação Geral
Jorge Pereira
project-power-tem-o-superpoder-da-reciclagem-cinematograficaO filme parte de chavões e superpoderes para entregar um objeto de ação rotineiro.