Who Wants To Live Forever?”, perguntavam os Queen nos anos 80 num tema que serviria de montra para “Highlander”, filme onde imortais lutavam entre si até que sobrasse só um. Se Andy (Charlize Theron), a protagonista deste “A Velha Guarda”, pudesse responder a essa  questão, ela provavelmente diria que não, ou então talvez sim, mostrando-se tão indecisa como Gina Prince-Bythewood, a realizadora desta super-produção da Netflix que demonstra andar perdida entre o filme de ação, o drama açucarado e o videoclipe musical.

Se há coisa que não se pode apontar o dedo é ao elenco, a começar por Charlize Theron, ainda que toda a sua performance de durona seja já uma marca tipificada (e repetitiva) que vem desde “Aeon Flux”, passou por “Atomic Blonde” e “Velocidade Furiosa”, atingindo o apogeu em “Mad Max: Estrada Perdida”.  Aqui a sul-africana volta a mostrar carisma e sobriedade para a tarefa, mas a vertente dramática imposta a esta imortal “cansada” depois de tantos anos a remendar os males do mundo é ofuscada por uma notória falta de ritmo e uma apatia generalizada mascarada de drama existencial profundo, especialmente quando interage com Nile (KiKi Layne), a outra figura de destaque que só recentemente percebeu que era imortal e está a lidar com a velha história dos grandes poderes, responsabilidades, e (drama, drama, drama) no ter de se afastar dos que ama. 

Por trás destes sólidos blocos no feminino, onde a química existe, mas a mística nunca sai do “ponto morto”, estão dois nomes fortes do cinema europeu: Luca Marinelli, recentemente galardoado em Veneza como melhor ator por “Martin Eden”; e Matthias Schoenaerts, que depois de “Rundskop” e “Ferrugem e Osso” transitou para o cinema norte-americano com destaque em filmes como “A Agente Vermelha” ou o mini-sucesso no circuito indie, “The Mustang”.

Mas todos eles, a quem se junta o holandês Marwan Kenzari, são traídos, não apenas pela manta de retalhos com que se cose o enredo, mas especialmente por um argumento que dissipa qualquer ideia de inovação ou arrojo e apenas parece escolher chavões de todos os feitios, copiados daqui e dali, para  conquistar a audiência.

É curioso ver como Hollywood (se quiserem chamem-lhe a Hollywood 3.0) se renova em termos de diversidade racial e de género, mas mantém todos os lugares comuns das narrativa e construção das personagens intactos a regeneração, orientando as decisões para o totalitarismo do agradar gregos e troianos. Na verdade, é refrescante ver esta diversidade à frente e atrás das câmaras, mas também é verdade que a frescura acaba aí, pois o guião vem constantemente com aquele odor bafiento das soluções armadas, sentido de justiça que se confunde com vingança, e uma moralidade como bem maior para vender mais uma historieta de como gente com super-poderes são fulcrais para salvar o mundo de humanos genericamente perversos e gananciosos. 

Por aqui solta-se o velho “Bullshit” para frisar que não há absolutamente nada de novo, apenas matéria prima reciclada e embrulhada em papel marchê “com as cores da estação”, onde não falta a nova tendência do vilão “panhonha” que não impõe qualquer respeito ou medo, ou o “twist” obrigatório, que nem é assim tão surpreendente.

E essa putrefação das opções narrativas é ainda acompanhada pela pobreza dos elementos técnicos e opções estéticas e sonoras, como por exemplo da extremamente intrusiva banda-sonora, que num momento de ênfase dramático repete o que as palavras e imagens já mostravam, ou nas cenas de ação, já de si banais, se sobrepõe de tal maneira que fazer tudo parecer um videoclipe da MTV ou dos seus satélites concorrentes. 

Outro grande exemplo de que nada verdadeiramente funciona por aqui além do elenco, é quando filme viaja ao passado, ao antigamente, aos tempos idos em que os nossos heróis já trabalhavam a bem da justiça global (tecnicamente isto é o que se chama uma “origin story”) e foram vítimas de todo o tipo de injustiças, momentos esses sofríveis e risíveis ao nível de qualquer produto televisivo de menor qualidade, lançando todo o filme na mais pura imperfeição, indefinição e incongruência. É isto cinema, TV ou anúncio publicitário (videoclipe)?

Pois bem, é tudo isto e não é nada disto. É entretenimento em série (nasceu  mais uma franquia) e a enésima história adaptada dos comics que se vê e se esquece num ápice, especialmente em tempos que se lançam destes exemplares –  todos diferentes, mas todos iguais – às dezenas nos mais variados meios. 

Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-velha-guarda-a-imortalidade-e-uma-macadaHollywood renova-se em termos de diversidade racial e de género, mas mantém todos os lugares comuns das narrativas imunes a verdadeiras mudanças