Estruturado nas franjas entre o mistério, na sua dimensão de género mais próxima do polar, e a perplexidade política, Labrador – Autopsie du Silence confirma a singularidade do cinema de Rodrigue Jean ao transformar uma investigação criminal numa reflexão, amaríssima, sobre identidade, preconceito e pertença. Inserido numa cinematografia francófona canadiana que continua a revelar vozes autorais de relevo, tendo em Denis Côté o seu realizador mais prolífico e internacionalmente presente na atualidade, o filme dialoga com uma tradição de inquietação moral que encontra ecos tanto no thriller psicológico francês dos anos 1980 e 1990 quanto na obra do austríaco Michael Haneke. Difícil não pensar em Caché (2005), na sua microfísica da invisibilização das diferenças.

A sua narrativa, por vezes morosa, de uma lentidão que afeta, acompanha Alupa Tulugak (Christopher Angatookalook), um mecânico indígena inuíte que trabalha num cargueiro que atravessa as águas geladas do Atlântico Norte. Quando Alex, o cozinheiro da embarcação e seu amante secreto, surge morto em circunstâncias misteriosas, Alupa torna-se o principal suspeito. A investigação desencadeia uma espiral de desconfiança que expõe tensões raciais, sociais e culturais profundamente enraizadas nas estruturas institucionais canadianas. A enigmática presença da supervisora de bordo vivida por Gabrielle Poulin B., em potente interpretação, desenha novos caminhos de entendimento daquele mundo de águas e solidões. É um trabalho de interpretação meticuloso.

Jean evita os atalhos convencionais do policial e aposta numa narrativa sinuosa, construída a partir de silêncios, ausências e fragmentos de memória. A montagem, igualmente sinuosa, embaralha tempos e perceções, aproximando-se da estratégia narrativa de Haneke no pouco celebrado, mas notável, Happy End, no qual o suspense nasce menos da descoberta de um culpado do que da revelação gradual das fraturas morais de uma sociedade. É um estudo sobre doenças cujo contágio se espalha por papéis carimbados, e-mails proibitivos e descartes. Como nos melhores Hanekes, o que interessa a Rodrigue não é apenas a intriga a ser descoberta, e de alguma forma solucionada, mas sim o modo como desnuda mecanismos de exclusão, privilégio e violência simbólica.

As paisagens inóspitas do Labrador tornam-se uma extensão do estado emocional do protagonista, como se o barco fosse um estado perpétuo de deriva, cercado por um sistema incapaz de compreender a sua condição de indígena. Ao mesmo tempo, a presença espectral do amante confere à narrativa uma dimensão fantasmagórica que amplia a sensação de desamparo e deslocamento.

Num momento em que o cinema canadiano de língua francesa procura renovar-se sem perder a força da sua tradição autoral, Labrador – Autopsie du Silence reafirma a vitalidade dessa produção. Se o maior triunfo internacional desse espaço continua a ser As Invasões Bárbaras, de Denis Arcand, vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional e marco incontornável do cinema quebequense neste século, o trabalho de Rodrigue Jean demonstra que a região segue capaz de produzir obras sofisticadas, politicamente agudas e formalmente desafiadoras. Entre o thriller, o drama social e a elegia, o realizador constrói um filme assombrado por fantasmas íntimos e coletivos.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
labrador-autopsie-du-silence-perigo-a-derivaNum momento em que o cinema canadiano de língua francesa procura renovar-se sem perder a força da sua tradição autoral, "Labrador – Autopsie du Silence" reafirma a vitalidade dessa produção.