Num lugar muito particular de ossos e fraturas expostas, Dante evoca a memória da fase mais fértil dos thrillers sangrentos de Álex de la Iglesia, que ajudaram a redefinir a toada pop do cinema espanhol nos anos 1990, ainda no tempo do VHS. Há ecos indisfarçáveis da energia anárquica de Perdita Durango (1997), com a sua brutalidade estilizada, encarnada em Rosie Perez e Javier Bardem, de modo a transformar violência, humor cítrico e crítica social numa combinação explosiva. A nova longa-metragem de Hugo Ruíz não reproduz esse universo quadro a quadro, mas dialoga com a sua loucura e com a sua efervescência ao mergulhar numa espiral de perseguições. Personagens moralmente ambíguas e situações-limite transformam uma única noite num campo de batalha emocional e físico, com foco nos percalços de um jovem paramédico, encarnado por um Chino Darín entre o heroísmo reticente e a bipolaridade, com uma expressão que lembra o jovem Kyle MacLachlan.
A seleção de Dante para a secção Escape from Tribeca, dedicada ao cinema de género e às experiências de alto impacto, representa mais do que um reconhecimento individual para o seu cineasta, Hugo Ruíz. Confirma a extraordinária capacidade de Espanha para continuar a produzir narrativas capazes de circular com destaque pelos principais festivais do mundo, sobretudo depois da sua exitosa campanha em Cannes, com La Bola Negra, El Ser Querido e Amarga Navidad. Não por acaso, o filme chegou a Nova Iorque cercado de expetativas. Marca o regresso do realizador ao festival que o premiou como Melhor Realizador Estreante por Una Noche con Adela, em 2023.
Poucos países europeus conseguiram construir, simultaneamente, uma presença tão forte no circuito autoral e uma indústria tão eficiente na produção de sucessos populares. Enquanto nomes como Pedro Almodóvar, Carla Simón, Albert Serra, Rodrigo Sorogoyen, Oliver Laxe e Jaione Camborda acumulam convites para Cannes, Berlim, Veneza e San Sebastián, o cinema espanhol também mantém uma tradição de diálogo com o grande público que raramente encontra equivalentes no continente. Talvez nenhum exemplo seja mais emblemático dessa vocação comercial do que a franquia Torrente, criada por Santiago Segura. Lançado em 1998, o primeiro filme transformou-se num fenómeno cultural instantâneo, atraindo milhões de espectadores. Os seus cinco capítulos venderam, somados, mais de 11 milhões de bilhetes em Espanha e arrecadaram cerca de 70 milhões de euros apenas no mercado doméstico, números que os colocam entre os maiores sucessos da história do cinema espanhol. Durante anos, Torrente 2: Misión en Marbella sustentou recordes de bilheteira e demonstrou que a indústria espanhola podia disputar atenção com as superproduções de Hollywood sem abdicar da sua identidade cultural. Dante é um filho de Torrente. Pródigo, talvez, mas semelhante à sua matriz.
O desempenho agonizante dos anjos caídos que cercam o médico de Chino Darín na longa recorda que a força do cinema espanhol não se resume à comédia popular e aos almodramas. O país construiu uma reputação internacional especialmente sólida no terreno do suspense, do horror e do thriller. De Álex de la Iglesia a Jaume Balagueró, de Paco Plaza a Alejandro Amenábar, passando por realizadores como Daniel Monzón, Enrique Urbizu e Alberto Rodríguez, Espanha desenvolveu uma linguagem própria para narrativas marcadas por tensão, violência e comentário social. Películas como O Dia da Besta, REC, Cela 211, Que Deus Nos Perdoe e A Ilha Mínima ajudaram a transformar a adrenalina espanhola numa fórmula, não algorítmica, reconhecida mundialmente.
É nesse terreno que Hugo Ruíz se movimenta com desenvoltura. Em Dante, Eduardo, o paramédico interpretado por Chino Darín, é arrastado para uma situação extrema quando se vê obrigado a manter vivo um poderoso criminoso. A partir daí, o filme abandona qualquer possibilidade de conforto e mergulha numa sucessão de confrontos, dilemas morais e explosões de violência. O realizador utiliza uma montagem de pulsação quase taquicárdica, construída a partir de cortes precisos e de uma progressão rítmica que parece acelerar os batimentos cardíacos do espectador. A edição transforma cada deslocação, cada emboscada e cada mudança de rumo num mecanismo de pressão crescente, sem permitir zonas de repouso dramático.
A fotografia de Teo Delgado acompanha essa lógica de vertigem. O desenho visual aposta em contrastes agressivos, em fontes luminosas que recortam rostos e ambientes com uma aspereza calculada, explorando a noite urbana como um território de ameaça permanente. Ruas, corredores, ambulâncias e esconderijos ganham densidade física graças a um trabalho de câmara que privilegia proximidade, instabilidade e sensação de urgência. O resultado é uma experiência visual que reforça a perceção de aprisionamento das personagens e amplia o impacto emocional das sequências de ação.
A escolha de Chino Darín para liderar a narrativa também reforça o alcance internacional do projeto. Filho de Ricardo Darín, uma das figuras mais respeitadas do cinema latino-americano, o ator vem construindo uma carreira marcada por escolhas arriscadas e personagens de forte intensidade dramática. Ao seu lado, Ester Expósito acrescenta ao elenco uma das presenças mais reconhecidas da nova geração de intérpretes espanhóis, sobretudo depois da projeção global conquistada pelas plataformas de streaming.

