Com a sua 33.ª edição a iniciar-se na passada quarta-feira, 10 de junho, com We, The Hated, de Rich Felgate, o Sheffield DocFest prepara-se para, até ao dia 15 de junho, propor seis dias de cinema, indústria, experiências imersivas e conversas. Sob o lema Realities in Motion, o festival chama a si temas quentes da atualidade, com We, The Hated a lançar o mote (e a polémica), levando-nos até ao mundo dos ativistas climáticos da Just Stop Oil, questionando até onde podem ir os protestos hoje em dia numa democracia sob intensa pressão policial, judicial e mediática.
Com 104 filmes para ver e mais de 200 sessões, pela cidade britânica vão passar documentários sobre figuras como Katie Price, Jesy Nelson, Billie Jean King e Eric Cantona, além de obras musicais dedicadas aos Earth, Wind & Fire e Judas Priest. O programa inclui ainda How to Feed a Dictator, de Andrew Neel, que revisita cinco regimes ditatoriais brutais, do Iraque à Coreia do Norte, através dos testemunhos dos cozinheiros pessoais que serviram os seus líderes, e Wax & Gold, de Ruth Beckermann, anteriormente apresentado na Berlinale Special, que parte do Hilton de Adis Abeba para interrogar a história e o presente da Etiópia.
Com 37 filmes distribuídos por cinco secções competitivas, o destaque vai para o Prémio Tim Hetherington, onde surgem obras entre o jornalístico e o artístico, como The Long Cuban Night, sobre as manifestações em Cuba por parte de um grupo de artistas; Birds of War, a partir das frentes de guerra na Síria; Life Support, centrado nos testemunhos de médicos em Gaza; Saigon Story: Two Shootings in the Forest Kingdom, sobre fotografia, memória e o legado da guerra no Vietname; e TCB – The Toni Cade Bambara School of Organizing, sobre a escritora, cineasta e ativista nova-iorquina.


Na Competição Internacional, onde são oito os filmes em busca do Grande Prémio do Júri, a seleção vai de MKO, de Ose Oyamendan, sobre Moshood Abiola, vencedor das eleições mais livres da história da Nigéria, antes de ser preso e morrer durante negociações com diplomatas norte-americanos, a Filthy, de Bàrbara Mestanza e Marc Pujolar, em que uma atriz procura o homem que a agrediu sexualmente, transformando o trauma em matéria artística e acusação. Já em Time Machine Maidan, Roman Liubyi e Volodymyr Tykhyy regressam à revolução ucraniana de Maidan, enquanto Colors of White Rock, de Khoroldorj Choijoovanchig, acompanha a única mulher camionista da Mongólia. As escolhas prosseguem com The Archivist, de Rob Curry e Tim Plester, centrado em David “Doc” Rowe; Lesbian Lines, de Cara Holmes, sobre uma rede clandestina de linhas telefónicas de apoio criada por lésbicas irlandesas em 1979; The Apologist, de Kristof Bilsen, que olha para o pedido de desculpa com um olhar transversal; e Disciples, de Pankaj Johar e Sunaina Kapoor, sobre a fé e os segredos numa escola hindu em Varanasi.


Na Competição Internacional de Primeiras Obras, num programa apoiado pela Netflix, encontramos A City in the Forest, de Lev Omelchenko e Nolan Huber, sobre a resistência contra a destruição de uma floresta urbana em Atlanta; Hope is a Word, da norueguesa Maria Galliani Dyrvik, que visita o delta do Níger, onde a extração petrolífera contaminou durante décadas o território; Magma, em que Mia Bendrimia parte da história da própria família para investigar as memórias contraditórias da guerra da independência argelina; e Matininó, de Gabriela Arp, em que visitamos Porto Rico para ver um grupo multigeracional de mulheres a responder à violência e ao abuso. E temos ainda The Way You See Me, de M Untitled, ambientado no México, e The Wolf, de Wancheng Gu e Prasad Sudhakar Shetty, passado na China, dois trabalhos que abordam questões identitárias e de género para mostrar a repressão. Finalmente, The Wind’s Thirst, de Alejandro Valbuena, vai até ao deserto colombiano de La Guajira observar como os interesses empresariais, em nome da energia verde, colidem com o território ancestral, enquanto WOLF, de Christian Cargill, traça um retrato íntimo, entre o arquivo e a animação, do cantor britânico Patrick Wolf. Tilda Swinton é a narradora de serviço.


A presença lusófona no programa público passa pelas coproduções portuguesas Red Elephant, do paquistanês Iqran Rasheed, e Blue, de Ana Vijdea, ambas na competição internacional de curtas-metragens. Red Elephant acompanha requerentes de asilo LGBTQ+ na Bélgica que são confrontados com a exigência de provar a sua identidade através da exposição do trauma.
Outro destaque desta edição é a atenção dedicada a Maxine Peake, a convidada de honra que participa numa conversa sobre a representação de vozes da classe trabalhadora no ecrã e assume uma função curatorial. Miriam Margolyes, Chris Packham e Andrea Arnold vão estar também na órbita do certame, através de conversas e eventos ao vivo, além de uma sessão especial dedicada ao legado de David Attenborough, no ano em que completa 100 anos.
Sheffield aposta ainda em novos públicos através da GEN DocFest e olha, no programa Alternate Realities, para outras formas digitais da não ficção.
Paralelamente ao festival, o MeetMarket decorre a 11 e 12 de junho, com cerca de 50 projetos a serem apresentados a financiadores, distribuidores, programadores e exibidores. O programa da indústria inclui ainda exibições, encontros profissionais, apresentações de projetos, mesas-redondas e workshops. Em 2026 não existem projetos portugueses selecionados, mas há presença brasileira com In Search of the Lost World, de Jorge Bodanzky e Morzaniel Iramari Yanomami, em coprodução com o Reino Unido, e Inside the Biggest Case on Earth, de Renan Flumian, em coprodução com o Chile.

