Presente em Cannes, na Quinzena e na Un Certain Regard, atento sempre às brechas indie para Pablo Larraín (El Club) filmar em inglês, o Chile expandiu a sua presença nos festivais do primeiro semestre também para os EUA, via Tribeca. Contou com Summer War, de Alicia Scherson, realizadora do premiado Play, para isso, numa mistura áspera de drama, suspense e thriller político que se converte numa espécie de antiépica de uma fase de reconfiguração daquela pátria. É uma fase na qual a ditadura de Augusto Pinochet caminhava para o fim, mas os seus fantasmas permaneciam vivos sob a superfície da vida quotidiana. Para falar dela, o filme apela à literatura de Roberto Bolaño. Nascido a 28 de abril de 1953, em Santiago, e falecido precocemente a 15 de julho de 2003, em Barcelona, o autor continua a ampliar postumamente a sua influência muito para além da literatura.
Apresentado em Tribeca como um dos mais celebrados títulos latino-americanos da Competição Internacional de Ficção, o filme adapta Terceiro Reich, romance em que Bolaño acompanha Udo Berger, campeão de jogos de guerra que desembarca num balneário chileno para passar férias ao lado da namorada. O misterioso desaparecimento de um amigo transforma aquele cenário aparentemente idílico num território de inquietação crescente. Em vez de procurar respostas, Udo refugia-se numa partida de estratégia militar que passa a refletir os mecanismos de poder, dominação e violência que o cercam.
Scherson compreende com precisão a natureza ambígua da escrita de Bolaño e constrói uma narrativa que avança por zonas de sombra, recusando explicações fáceis. Conversa com o que Manuela Martelli fez nos recentes Chile ’76 (2022) e El Deshielo (2026), ao inventariar traumas numa conexão muito peculiar, e feminina, com tropos do thriller. O suspense nasce menos dos acontecimentos do que da atmosfera de ameaça permanente que envolve as personagens. Nesse sentido, o trabalho do diretor de fotografia Alejo Maglio revela-se fundamental. A sua câmara capta a luminosidade das praias chilenas sem jamais dissipar uma sensação latente de perigo, criando um contraste fascinante entre beleza natural e decomposição moral. Cada enquadramento parece esconder algo que nunca se deixa ver por completo.
A mesma sofisticação pode ser encontrada na montagem de Manuel Ferrari, responsável por um ritmo por vezes engasgado, semelhante ao procedimento vacilante de Berger. Dan Beirne, seu intérprete, cria uma atuação reflexiva que oculta os sentimentos até ao limite da implosão. Igualmente forte é a composição de Alex Pascal como Ingrid, namorada do craque dos jogos.
A forte acolhida de Summer War em Tribeca ajuda a reafirmar a força do atual cinema chileno, uma cinematografia que atravessa um dos períodos mais férteis da sua história. Realizadores como Sebastián Lelio, Dominga Sotomayor, Maite Alberdi e a própria Scherson têm ampliado a presença do país nos principais festivais internacionais, explorando temas ligados à memória, à identidade e às transformações políticas da sociedade chilena. Em comum, partilham a capacidade de combinar ambição estética e reflexão histórica.
Nesse contexto, Alicia Scherson ocupa uma posição singular. Dona de uma filmografia marcada pela experimentação formal e pelo diálogo constante com a literatura, veja-se Turistas (2009) e o ótimo Il Futuro (2013), ela entra no universo de Bolaño para demonstrar como o autor permanece essencial para vedar as feridas abertas da América Latina. A reverberação do seu imaginário pode ser sentida até em montagens como Deserto, peça de Luiz Felipe Reis, que ecoa a atmosfera de errância, mistério e desassossego associada ao escritor.
Mais do que uma adaptação literária, Summer War funciona como uma tradução audiovisual do universo bolañiano. Ao fundir memória histórica, paranoia política e desejo, Scherson cria um filme que observa o nascimento de um novo Chile sem perder de vista os escombros do anterior. Fá-lo com elegância. Sem temer sombras…







