A crueldade humana (ganância na corrida ao ouro) e animal (dominância do mais forte) que proliferam no livro de Jack London que inspira este Apelo Selvagem é substituída nesta nova adaptação por uma visão de dominância humanista que aprofunda o vínculo homem-cão, idealizando/floreando o final do século XIX no Yukon (Canadá) e o relacionamento entre os animais, todos eles por aqui humanizados nas suas escolhas, pensamentos e decisões.
De Clark Gable a Charlton Heston, passando por Rutger Hauer, muitos foram os atores que lideraram as adaptações ao cinema desta história publicada em 1903, mas apesar de Harrison Ford e Omar Sy estarem por aqui neste filme do realizador de Lilo e Stitch, quem tem toda a atenção é Buck, o cão arraçado de São Bernardo construído por computador através de motion capture. Quem lhe deu “corpo” e “movimento” foi o ator Terry Notary (Planeta dos Macacos; Avengers), experiente nestas andanças, mas como quase todos os filmes do género que apresentam animais movidos a CGI, tudo soa permanentemente falso, pelo menos até o nosso cérebro se adaptar e começar a ver um animal e não uma construção por computador.
Não é contudo por aí que reside o maior problema nesta história de um cão que é raptado na Califórnia e que acaba a empurrar trenós nas gélidas paisagens norte-americanas. O principal problema está na narração repetitiva de Harrison Ford (que diz o que vemos), e que concretamente especula/”lê” os pensamentos do cão na sua jornada de passagem de animal em cativeiro (de estimação) ao estado selvagem (livre). Em todo o momento, este produto da Fox entretanto intoxicado com a visão Disney, abarca um olhar infanto-juvenil super doce em relação à realidade (do livro, de outras versões), dando pelo caminho lições de moral superficiais (até um alcoólico deixa instantaneamente de o ser) num mundo aparentemente sem grandes problemas.
Convém dizer que desde a década de 1920 que a história de Buck vem sendo adaptada consecutivamente ao cinema, dependendo sempre o seu resultado final da tecnologia ligada às produções, sejam através dos efeitos computorizados, como neste caso, sejam os efeitos práticos, com cães reais nas versões mais antigas.
Com a “morte” dos animais reais nos filmes norte-americanos (♬ PETA Killed the Dog Star ♬) essa dependência tecnológica acentua-se, embora efetivamente permitisse mostrar a bestialidade e crueldade da natureza sem sacrificar qualquer animal real para isso. O filme foge assim – como quase todos do cinema mainstream – a sete pés de imagens minimamente perturbantes (uma paulada é apresentada através de sombras, uma luta de cães é reduzida a encostos e mordidas no pescoço), dando pois uma perspetiva de conto de fadas estéril, repleto de artificialidade – do cão, do retrato da natureza, da ausência de violência e da loucura da corrida ao Ouro do século XIX, e do próprio John Thornton (Ford)-, cujo o único propósito é amolecer corações.















