Wild Rose: assim se eclipsa uma estrela

(Fotos: Divulgação)

Sometimes I am two people. Johnny is the nice one. Cash causes all the trouble. They fight“… Johnny Cash

Há várias forças conflituantes em Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley magnética), uma jovem aspirante a cantora country que se vê presa ao passado, não só pela pulseira eletrónica que traz agarrada ao tornozelo, mas pelos dois filhos que teve antes ainda de fazer 18 anos. Quando em jeito de desabafo ela se compara com os transsexuais, ao dizer que nasceu na Escócia mas devia ter nascido nos EUA, entendemos que a sua vida é uma permanente luta entre o que tem e o que ambiciona ter.

O filme começa com ela a sair da cadeia. Antes mesmo de ir ter com a sua mãe (Julie Walters), que está ocupada com os dois netos, ela visita um conhecido – acabando por ter sexo ao ar livre como se não houvesse amanhã. Só depois a “responsabilidade/obrigação” de ir ter com os filhos se apodera, sendo estes e a sua vida fechada em Glasgow um fardo que ela tem de carregar, embora no seu íntimo permaneça o sonho de seguir para Nashville e ter sucesso no country, género musical que ela segue apaixonadamente, pois como Harlon Howard definiu e ela tatuou, são “três acordes e a verdade“.

Se pensarmos bem, Wild Rose não é muito diferente no seu núcleo do recentemente estreado Corpus Christi, pois neles temos duas pessoas que tentam fugir do seu estado atual refugiando-se naquilo que sentem encaixar neles. E quer o Daniel do filme polaco como a Rose deste filme encontram “vida” e a sensação de liberdade através das suas performances, seja num caso através de missas e conversas com os paroquianos, seja noutro através das atuações musicais.

A própria direção de fotografia por aqui (e no filme polaco) acentua as diferenças desses dois mundos, embarcando no registo realista britânico (Andrea Arnold) na exploração da vida quotidiana de Rose, que agora trabalha como mulher a dias, e um registo mais fantasioso que carrega nos tons e na luminosidade quando ela sobe ao palco.

E tal como em Corpus Christi, temos também um elemento externo que ameaça expor o passado da jovem, pondo assim em xeque a amizade que ela fez com a sua patroa de classe média, que assume uma espécie de tutoria dela no caminho para o mundo da música. É nesta personagem, interpretada por Sophie Okonedo, que reside um potencial cliché, o do tradicional “white savior”, mas invertido, já que a nossa Rose é branca e a sua patroa negra. Assim, o que temos é a ajuda da pessoa de classe média à de classe baixa para esta atingir os sonhos. A argumentista Nicole Taylor e o realizador Tom Harper conseguem dar a volta a isso de maneira subtil, longe do sentimentalismo, embora nunca abdiquem de um travo de crowd pleaser, mesmo que à ultima da hora escapem pela porta dos fundos ao construir uma personagem por quem nem sempre estamos a torcer (não é fácil simpatizar com Rose).

A verdade que se questiona por aqui é se devemos abdicar daquilo que realmente somos bons (e Marie é ótima como cantora) para assumir outras responsabilidades, neste caso a maternidade. No filme Próxima, que brevemente veremos nos cinemas, a mesma questão é apresentada, quando os sonhos (de ser astronauta) de Eva Green entram em conflito com questões de responsabilidade e dependência entre mãe e filha.

Nesse aspeto, e estando num registo musical, este Wild Rose funciona assim mais como uma espécie de anti-Assim Nasceu uma Estrela, pois no caso de Rose, qualquer que seja a sua decisão [ter sucesso na música ou não desiludir os filhos] vai levar a um inevitável desgosto e sensação de perda (da carreira ou dos filhos). Será sempre um sacrifício que Rose terá de lidar, num filme que acaba por se revelar mais como uma jornada de amadurecimento do que do nascimento e ascensão de um “underdog“.


Jorge Pereira

 

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