«Cats» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Cats irá certamente dominar a temporada dos Razzies, mas é justo? Nem por isso…

Se há género cinematográfico ferrugento (e aborrecido), por pouca ou nenhuma renovação na sua forma, é o musical, que atingiu o seu pico (há quem fale em excelência) nos anos 30, 40 e 50 e que nas décadas seguintes reciclou-se tão-somente através de homenagens (que invocam o saudosismo aos clássicos) e renegações (lavadas com música contemporânea e jovialidade).

Por isso, e com raríssimas exceções (Moulin Rouge e alguns trabalhos de animação), a maioria dos filmes com claros objetivos na “award season” que têm aparecido nos últimos anos no grande ecrã, como Chicago e La La Land, são apenas meras evocações ao passado, enquanto os produtos adolescentes (Pitch Perfect; Fama) proliferam como verdadeiros iscos de uma cultura pop industrial de linguagem marcadamente televisiva para atrair novos públicos.

Assim, e neste Universo, Cats surge como um tímido, muitas vezes incoerente, mas necessário pontapé para introduzir um compósito tão bizarro, alegórico e imperfeito que não se pode deixar de aplaudir a coragem. E isto especialmente em tempos em que todos se queixam de esquematismos, formatações e industrialização de filmes em série, mas que sempre que alguém desafia o mote, refugiam-se nos vales da “estranheza” (essa coisa tão à velho do Restelo), pois na verdade os seus olhos moldados não conseguem ver mais que o mesmo com ligeiras inflexões. Sendo esta a adaptação de um clássico absoluto dos palcos teatrais (que se inspirava nos poemas de T. S. Eliot de 1939), a heresia de Hooper foi ainda maior, pois sabemos que ao mexer no “imaculado”, o linchamento público era provável. E assim foi!

Hooper é o novo vilão preferido, um némesis, primeiro porque se atreveu a criar um híbrido que coloca atores de carne e osso movidos a esteróides digitais; e depois porque aguentou o que pôde contra o histerismo da Internet quando as primeiras imagens do filme surgiram online num trailer imediatamente apelidado de “manhoso”. Sucumbiu finalmente aos novos tempos quando o projeto chegou às salas, pois toda a gente odiava o filme sem o ver (dá cliques dizer mal de Cats), e os valores de produção e a necessidade de retorno financeiro começaram a pesar em demasia para o estúdio.

O resultado? Os efeitos visuais foram trabalhados e polidos quando a fita já estava nas salas, uma verdadeira falência autoral a favor do juízo da audiência massificada, um test screening em tempo real que um tal Sonic foi também vítima (e agora já tudo está rendido ao baby-Sonic). No fundo, é o tal “audiovisual” (para vender merchandise) que Scorsese falou, em que o que prolifera não é uma visão artística mas “pesquisas no mercado, testadas pelo público, avaliadas, modificadas, revestidas e remodeladas até estarem prontas para o consumo“.

A verdade é que mesmo com vários equivocos e algumas decisões criativas questionáveis na execução, pois essencialmente funcionam como distrações para um público que cada vez mais coloca cinema e hiperrealismo na mesma frase, Cats revela ser uma experiência visual ímpar, tão desprimorosa como emocionalmente envolvente. Claro está que muita dessa força emocional vem dos atores e na sua interpretação, com Francesca Hayward e Jennifer Hudson a serem forças maiores na expressividade, delicadeza e força vocal, subjugando tudo o resto, em especial o visual tosco e assumidamente diferente (um “ai-jesus” fundir CGI com atores reais), para o pano de fundo – de aquilo que menos importa.

E Hooper mostra tudo isto sem escravidão ao material que adapta (encurta performances, escolhe criteriosamente planos, ângulos, etc), não tendo ainda medo de entregar um objeto que esteticamente atropela o espectador. Mas como dizia Marty McFly em Regresso ao Futuro: “I guess you guys aren’t ready for that, yet.


Jorge Pereira

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