Variações da vertente mais sociológica da contracultura, os filmes de Martin Scorsese, que chega aos 77 anos neste sábado (16/11/2019), muitas vezes banham-se nas águas da penitência católica, numa conexão com o passado cristão de ítalo-americano do cineasta nova-iorquino, que pairou sobre a lírica folk, na primeira década de sucesso da sua carreira, ao procurar na poética de Kris Kristofferson uma tradução de si mesmo.

Há uma música, falada – e não cantada – no início de Taxi Driver (Palma de Ouro de 1976), que diz: “He’s a prophet, he’s a pusher/ He’s a pilgrim and a preacher, and a problem when he’s stoned/ He’s a walkin’ contradiction, partly truth and partly fiction“. Se fosse necessária uma definição quase metafórica para o melancólico drama O irlandês (The Irishman), novo filme (ou melhor, novo filme da máfia) do realizador, essa estrofe da canção “The Pilgrim, Chapter 33” seria a escolha precisa. Nada é mais antitético do que Frank Sheeran, camionista, ex-militar e assassino que devolve a Robert De Niro uma grandeza e uma vontade de potência que pareciam há muito perdidas na sua forma de atuar. Ao mesmo tempo em que é a retidão em pessoa, o “homem que pintava casas” – como ele é definido entre os mafiosos e magnatas do sindicalismo para quem empresta o seu gatilho –, Frank põe a sua trilha trágica em dúvida diante do fardo de ter que eliminar um amigo e patrão. É calado em casa, mas é doce e atento à criação de suas filhas. Respeita o espaço que o tabaco ocupa na vida de sua mulher, ainda que saiba dos seus malefícios. É caninamente leal, mas late quando o chefe desrespeita a sua posição de servo. E é, como a personagem dos versos do (há muito) desaparecido Kristofferson, um profeta… o profeta da sua própria sina e da moira de um mundo de imigrantes europeus que, entre guerras, encontraram na América o Eldorado que o Velho Mundo derreteu na alquimia do ódio.

Desde Kundun (1997), Scorsese não se arriscava a fazer algo tão político, tendo um “herói” tão épico quanto o buda ditoso que mata em nome do sindicalismo e dos mandamentos da máfia, em sua Omertà. Há muito debate político em O irlandês, quase tanto quanto no cinema político à italiana de Francesco Rosi (Salvatore Giuliano, 1962) e Elio Petri (Crimes à moda antiga), porém não com a mesma intensidade que há melancolia. É quase um filme de adeus, um filme silencioso, com planos longos sem qualquer ruído que não a respiração do velho Sheeran/De Niro. É um filme de balanço… dos EUA, de um mundo de resistências (pelas vias da brutalidade e do compadrio do submundo) e do próprio Scorsese. Afinal, não é mais um Scorsese para as salas de cinema: é um Scorsese para streaming. Embora tenha tido berço em festivais, como os de Nova York e de Londres, esta produção cheia de efeitos visuais bem aparados (para rejuvenescer os seus protagonistas) é uma iguaria para o cardápio da Netflix; é algo a ser sorvido no menu do computador ou do smartphone. É um filme de passagem, para um novo media. Daí, a revisão do passado. Daí os enterros.

Tendo por base o romance-reportagem de Charles Brandt, adaptado por Steven Zaillian (A Qualquer Custo, 2002), sobre o desaparecimento do líder sindical Jimmy Hoffa, O Irlandês evoca a linhagem dos samurais taciturnos de Kurosawa, incluindo o bufão Yojimbo, na construção da figura de Sheeran. É através de seu bushidô (código de honra) que realizamos um estudo dos Estados Unidos para entender como a contravenção foi institucionalizada e, pior ainda, burocratizada. Hoffa, construído a partir das tripas de Al Pacino, é um sintagma dessa burocracia; um tigre de papel que simboliza a revolução cultural (mas nunca moral) de uma pátria que avança sem dar um basta na criminalidade. Em conexão com a lírica religiosa essencial ao realizador, a mesma ligada a Kristofferson, “Solidariedade” é a palavra mais repetida na longa-metragem, gritada por Pacino, não apenas num esforço de clamar a união de mulheres, de homens… enfim, dos americanos, mas num empenho populista de disfarçar a erosão da ética, aquela que sustenta pátrias e alimenta sonhos. O único sonho em “O Irlandês” é a do bolso cheio e do copo sempre regado a uísque. O sonho que ficou não é o da construção de um projeto de futuro (ou projeto de país) e sim o do “pão nosso de cada dia“, conquistado a sangue derramado. O sangue que “pinta as casas”.

Existe, na longeva relação entre Sheeran e Hoffa, uma ética viável, a da amizade, que, quando verdadeira, jamais é provisória. Mas amizades são divididas. Sheeran divide a sua com Russell Bufalino, papel que arranca de Joe Pesci uma devastadora interpretação. Como o irlandês, ele também é um “estrangeiro”, alguém de outras terras, que sabe o que é ser um imigrante (ou filho de…) nos EUA. Mais do que o apreço por essa comunhão, o matador vivido por De Niro tem a consciência de que a amizade de Bufalino veio primeiro, pois ele entrou em sua vida bem antes do que Hoffa. Isso conta. Muito. Pelo menos para um soldado que, sob as ordens do General Patton, fazia nazis e fascistas cavarem as suas próprias covas. E ele, de algumas forma, fará Hoffa cavar a dele. O que vai doer. E doer muito, uma dor medida pelo olhar credor de uma de suas filhas, Peggy, vivida por Anna Paquin.

Esse calvário desenha-se na passarela de cores saturadas da fotografia de Rodrigo Prieto como uma via crúcis de Judas. O Irlandês, nesse ponto, cria um nó com A última tentação de Cristo (1988). São filmes sobre escolhas e sobre aquilo que optamos crucificar. Neste ano em que crucificou a Marvel, colocando a Netflix num pedestal, Scorsese põe o legado histórico da sua geração na genuflexão dos que carregam o peso de um país em crise. Crises diversas, daquelas que sangram, como as chagas do seu Cristo, como a camisa vestida por Pesci, como as mãos de verdugo de Sheeran. Poema de amargura.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Hugo Gomes
André Gonçalves
Fernando Vasquez
Jorge Pereira
the-irishman-o-irlandes-por-rodrigo-fonsecaO Irlandês prova que Martin Scorsese tinha ainda uma última palavra a acrescentar ao género de filmes de gangsters que tanto marcaram a sua carreira