Os povos indígenas são os povos originários de todas as partes do mundo. Os seus territórios ancestrais têm sido explorados e saqueados desde o tempo dos colonizadores e continuam a ser expropriados por grandes latifundiários. A luta indígena pelo reconhecimento legal das suas terras e pelo direito a viverem como povos indígenas mantém-se até hoje.

Este é o tema do documentário de longa-metragem Nuestra Terra (2025), realizado por Lucrecia Martel, que partilha o argumento com María Alché. O filme foi apresentado na secção Da Terra à Lua do DocLisboa 2025 e marca o regresso da realizadora argentina após oito anos sem filmar.

Martel documenta a realidade dos povos indígenas da Argentina através do julgamento do assassinato de Javier Chocobar, morto em 2009 por um homem branco e grande proprietário de terras, Darío Amín, que, juntamente com dois ex-policias — Luis Humberto Gómez e Eduardo José del Milagro Valdivieso Sassi —, tentou invadir o território da comunidade ancestral Chuschagasta, na região de Tucumán, onde vivia o líder indígena.

O filme nasceu de um vídeo de quatro minutos que Martel viu no YouTube, em 2010, mostrando o confronto entre um proprietário rural e uma comunidade indígena. A realizadora entrou então em contacto com a comunidade para saber mais sobre o caso e decidiu empreender uma longa investigação histórica, analisando documentos e recolhendo testemunhos entre 2011 e 2024.

Além do material de arquivo — parte dele pertencente à comunidade Chuschagasta —, que Martel digitalizou e assim ajudou a preservar, o filme integra imagens filmadas pela própria realizadora. O cinema, aqui, exerce o seu poder de recuperar memórias, conservar passados históricos em forma de imagem e dar a conhecer realidades ignoradas por grande parte do público.

Na primeira parte de Nuestra Terra, Martel mostra o julgamento e, posteriormente, a leitura da sentença do caso Chocobar. Do ponto de vista cinematográfico, esta secção tem menos interesse, já que foi a justiça quem decidiu a colocação das câmaras, e não a realizadora, o que lhe confere um tom mais jornalístico. Martel chegou a ponderar não incluir essa filmagem, mas optou por mantê-la por ser essencial à compreensão narrativa.

Paralelamente ao julgamento, a cineasta conduz-nos ao quotidiano dos indígenas de Chuschagasta. A câmara penetra na intimidade das suas vidas — por vezes recorrendo a imagens de drone —, revelando o território cuidado e as paisagens deslumbrantes das montanhas que habitam. O filme transporta-nos também ao passado da comunidade, através das histórias contadas pelos mais velhos, de fotografias antigas e de documentos familiares.

Nos últimos anos, vários realizadores têm recorrido a imagens de drone para mostrar grandes paisagens e sublinhar a dimensão simbólica dos espaços geográficos. No entanto, Martel não esquece que essa mesma tecnologia tem sido usada como arma de guerra e destruição.

A realizadora aborda ainda as lutas indígenas desde a colonização espanhola, que em 1807 declarou extintos os povos Chuschagasta e os desapossou das suas terras — lutas silenciadas por séculos de poder opressor. Ainda hoje, os povos originários da Argentina e de tantas outras partes do mundo têm de provar que são os legítimos donos das terras herdadas dos seus antepassados. E continuam a resistir à discriminação por serem indígenas. A Argentina, em particular, apagou sistematicamente a cultura indígena, insistindo na imagem de um país branco e de herança europeia.

Em Nuestra Terra, ficamos também a saber que a família de Cristóvão Colombo vendeu parte do território indígena argentino com o apoio de funcionários do governo de Tucumán, cúmplices desse processo de expropriação. Os povos Chuschagasta habitam a região há 350 anos e continuam a reivindicar o direito à sua terra e à sua cultura.

O colonialismo europeu — e não apenas — devastou os povos das terras que invadiu, escravizando-os, confiscando-lhes os territórios e destruindo os seus direitos. Os povos indígenas sempre cuidaram da terra, que na sua cosmologia é entendida como um ser vivo com o qual mantêm uma ligação espiritual, ancestral e de reciprocidade — e não como uma propriedade a explorar. Nunca desejaram vender ou destruir os territórios que habitam; pelo contrário, protegeram-nos dos invasores.

O filme de Martel é impactante e necessário: insere-nos no coração da causa indígena — povos durante décadas invisibilizados pelo cinema e pelas culturas brancas imperialistas. Só muito recentemente começaram a ser realizados filmes sobre temáticas indígenas e, mais recentemente ainda, a serem exibidos em festivais que não se limitam ao cinema ambiental. No DocLisboa, por exemplo, havia menos de dez títulos desse género numa programação de 211 filmes.

Nuestra Terra estreou no Festival de Cinema de Veneza, foi exibido em Toronto, San Sebastián e no Festival do Rio, antes de chegar ao DocLisboa. A não perder.

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Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
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