Sylvester Stallone completará 80 anos no próximo dia 6 de julho. Gastou imenso tempo a redigir, manualmente, uma espécie de autobiografia, ainda inédita, e tem um projeto sobre gangsters para desenvolver com Quentin Tarantino, inspirado pelo êxito da sua investida no universo da máfia na série Tulsa King. Visto recentemente a caminhar com o apoio de uma bengala, por conta de uma dor que a sua rotina diária de exercício físico gerou na musculatura da perna, já não demonstra tanto interesse em ser herói de espetáculos centrados na ação, como a franquia The Expendables (2010-2023). O eterno Rocky usa agora a sua Balboa Productions para tirar do papel narrativas que utilizem a luta como eixo estético de representação de histórias de superação. Por isso, o ator que um dia interpretou o pugilista mais amado dos ecrãs coloca agora a sua energia na produção de filmes sobre boxe… como é o caso do outonal Giant, que estreia em Portugal com a tradução literal: Gigante.
É uma recriação do périplo contra a intolerância e a pobreza do lutador Prince Naseem “Naz” Hamed, que venceu 36 dos 37 combates que disputou na sua carreira profissional, entre 1992 e 2002. Nascido em Sheffield, em 1974, de origem iemenita, chegou ao topo do desporto mundial. Teve o treinador irlandês Brendan Ingle (1940–2018) a seu lado, até abandonar o ringue e envolver-se em problemas com a lei.
Hamed, interpretado na longa-metragem de Rowan Athale (Wasteland) pelo ator Amir El-Masry, não é o maior entusiasta desta transposição da sua vida para o cinema. Zangou-se por considerar que o realizador — também argumentista — optou pelo ponto de vista de Ingle e não pelo seu. Essa leitura sustenta-se no destaque dado ao treinador, reforçado pela exuberante interpretação de Pierce Brosnan no papel de mentor. Hoje septuagenário, o 007 da década de 1990 procura um reconhecimento (merecido) pelas suas qualidades interpretativas e pela vasta bagagem artística. Em cena, o verdadeiro gigante do título parece ser ele.
Mais ativo como argumentista do que como realizador, Athale cumpre com eficácia as exigências da cartilha da biopic e leva para o set a lição que John G. Avildsen (1935–2017) deixou ao cinema, em 1976, ao realizar o primeiro Rocky: enquadrar o combate de boxe com uma abordagem quase documental, com câmara à mão, acompanhando a dinâmica dos lutadores. Esse foi o segredo que tornou a saga melodramática (e marxista) de superação de Balboa um marco sensorial. Essa dimensão ainda se faz sentir em Giant, na cuidada direção de fotografia de Larry Smith. Para além disso, há um estudo sensível sobre exclusão social.
Ingle, trabalhador da indústria do aço que geria um modesto ginásio de boxe num salão paroquial no norte de Inglaterra, tornou-se uma figura determinante no desenvolvimento do jovem Ahmed. É a relação tensa entre ambos que pavimenta o caminho que levaria o rapaz à fama internacional e ao confronto com a xenofobia em relação às origens iemenitas da sua família. A islamofobia na Grã-Bretanha dos anos 1980 e 1990 é um dos temas desta narrativa, que abraça um realismo cru em várias sequências — não apenas nas de combate — para expor a falta de empatia do Velho Mundo. Para Stallone, o saldo final é positivo: temos um filme maduro, com Brosnan em grande forma.


















