Em tempos de Super Mario Galaxy (2007) e Project Hail Mary, narrativas fantásticas que se impõem pelo arrojo formal, o êxito comercial da dramédia The Drama mostra que ainda existe lugar de sucesso para narrativas adultas que se apegam à palavra como aríete para derrubar os muros moralistas da sociedade, ainda que sem submissão plena ao verbo. O seu realizador, o norueguês Kristoffer Borgli, de Sick of Myself (2022) e Dream Scenario (2023), tem sido arguto o bastante no seu percurso autoral (centrado na denúncia da hipocrisia) para reconhecer o instante de ser palavroso e o momento em que a quietude é necessária. Zendaya e Robert Pattinson (um gigante em cena) sabem a hora de se calar e, quando falam, expõem as vísceras.

Mesmo ciente de que a Boston onde ambienta a trama está numa fase fria do ano, numa toada invernal, a direção de fotografia de Arseni Khachaturan dá aos enquadramentos idealizados por Borgli um colorido cálido. A movimentação gestual incontinente das suas personagens amplia o calor da cena, numa tradução da quentura que ferve diante dos tópicos que debatem. A montagem, feita por Joshua Raymond Lee em duo com o cineasta, aposta também na agitação. Mesmo em sazonais planos longos, há uma agilidade interna, no palavreado do elenco, no mexer de mãos. Desconforto é o termo que define a narrativa produzida por Ari Aster (bem superior a quase tudo o que realizou) com um orçamento de 28 milhões de dólares.

Estrelas em apogeu profissional, Zendaya e Pattinson desconstroem os invólucros apolíneos que usam em múltiplos projetos para engatar numa trama agridoce. Ela desaba tempestades no ecrã no papel de personagem Emma Harwood, balconista de livraria. Cortejada de um jeito atrapalhado, mas afável, por personagem Charlie Thompson, diretor do Museu Britânico (papel de Pattinson), ela acaba por se encantar pelos modos desajeitados que ele não disfarça sob o seu ar culto. Dois anos depois do encontro, decidem casar. Certa noite, enquanto caminham, veem personagem Pauline, DJ do casamento, a consumir heroína num parque público. Mais tarde, discutem o incidente com a madrinha, personagem Rachel (Alana Haim, em feroz composição), e o padrinho, personagem Mike (Mamoudou Athie, sempre plácido, mas profundo), ponderando se devem despedir Pauline. Quando Emma a defende, dizendo que cada um deles provavelmente já fez coisas más, o grupo reveza-se a admitir o pior que já fez no passado, num jogo de confissões sem culpa. Mike usou a sua ex-namorada como escudo humano durante um ataque de um cão no México; Rachel trancou a sua vizinha de infância, que considerava frágil, no armário de um atrelado abandonado durante a noite; e Charlie praticou cyberbullying contra um colega de forma tão severa que a família do jovem se mudou. Emma revela então, hesitante, que aos quinze anos planeou um massacre numa escola e perdeu a audição ao segurar um rifle demasiado perto do ouvido durante um treino de tiro — embora tivesse dito anteriormente a Charlie que nascera surda. A revelação choca todos e enfurece particularmente Rachel, cuja prima Samantha ficou paraplégica num tiroteio.

O horror dos tiroteios em ambiente escolar nos Estados Unidos, retratado pelo cinema em Bowling for Columbine (2002) e Elephant (2003), rendeu à América — e ao mundo — um trauma que justificativa alguma dissipa. A questão de The Drama é que o tal crime nunca se concretizou, não passando de um “e se”. Ainda assim, Emma é implacavelmente julgada e o futuro daquela união — sexualmente festiva e afetivamente complementar — é posto em causa. O amor, de modo corajoso, mantém-se de pé mesmo quando a retórica, nas suas saraivadas filosóficas, empurra a personagem de Zendaya para um fuzilamento.

Uma viragem brusca para a ironia altera o rumo do filme quando Damon Gupton entra em cena, na celebração das bodas, no papel de personagem Roger, pai de Emma. A sua severidade inabalável, avessa a sorrisos, desnuda as dinâmicas sociais que levaram uma jovem a pegar num fuzil para expurgar a própria inadequação, num país que naturaliza — e até celebra — o uso de armas. O drama do título, o drama real daquele povo, está aí. Chega-se a ele por meio de interpretações inflamáveis.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-drama-retoricas-que-fuzilam Zendaya e Robert Pattinson (um gigante em cena) sabem a hora de se calar e, quando falam, expõem as vísceras.