«Light of My Life» (Luz da Minha Vida) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Escrito e realizado por Casey Affleck, Light of My Life (Luz da Minha Vida) poderia ter algum encantamento numa era onde filmes como The Road (A Estrada), baseado na obra consagrada de Cormac McCarthy, ou até Leave No Trace, de Debra Granik, não existissem.

Mas existem e Affleck afunda-se aqui em material reciclado sem trazer para o grande ecrã grande elevação para mais uma história de sobrevivência minimalista dominada por angústias quotidianas e palavras pesarosas.

Na verdade, o setting por aqui é mais interessante que todo o filme: num mundo em que uma estranha doença dizimou a população feminina, um pai (Affleck) e uma filha (Anna Pniowsky), que miraculosamente sobreviveu à praga, vagueiam por um planeta onde os conceitos de moral e ética cada vez mais se confrontam. As mulheres tornaram-se tão escassas como valiosas e Affleck tem noção disso, passeando por este mundo perigoso à procura de um “porto seguro”, isto num momento em que a criança começa a chegar à adolescência e cada vez mais o confronta com a individualidade.

Percebe-se que como atores, a dupla pai-filha funciona na sua plenitude, especialmente pela relação de melancolia que existe com o passado trágico (flahsbacks da mãe ajudam a isso) e pela clara inabilidade de um homem em saber lidar e educar uma mulher que tem de passar como homem. O problema é que o cinema de Affleck, aqui normalmente circunscrito a pequenos espaços (uma tenda, uma casa, uma igreja), apenas triunfa na implantação da ameaça de violência permanente vinda de fora da esfera da dupla. Quando se foca nos diálogos de conhecimento pai-filha, não existe uma verdadeira lufada de ar fresco: os textos são derivativos e os trilhos de eventos passam por demasiados lugares comuns que invariavelmente colocam esta produção num limbo entre o drama familiar e o thriller distópico sem nada de absolutamente relevante para acrescentar.

Nesse aspeto, o apocalíptico A Estrada conseguiu muito melhor os seus propósitos, e no campo das relações pai-filha, Leave No Trace era muito mais enriquecedor e enternecedor sem necessitar de discursos depressivos que se querem poéticos. Assim, a única coisa que sustenta todo o filme de uma enorme secura espiritual e razão de existência é a tal tensão permanente, pois tudo o resto é bastante morno e previsível, transformando este Luz da Minha Vida num objeto abnóxio e descartável do filme de sobrevivência feito em série.


Jorge Pereira

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