Quase quarenta anos depois do clássico de Stanley Kubrick ter sido lançado, chega agora aos cinemas a sequela de Shining na forma de Doutor Sono.

Também ele adaptado a partir de uma obra de Stephen King, o autor de todo o conceito, que certamente toda a gente sabe que desprezou a versão cinematográfica de Kubrick, Doutor Sono fica a léguas do clássico intemporal do Cinema, o qual não ficou conhecido apenas pelo fabuloso trabalho estético, mas por toda uma atmosfera de terror, entre o psicológico e o sobrenatural, sublinhado por um desempenho fulminante de Jack Nicholson que em muito contribuiu para transformar o famoso Overlook Hotel num dos espaços mais temíveis e memoráveis da 7ª arte.
King é produtor executivo desta sequela e não sendo um fã do filme de 1980 acaba por ser curioso que Doutor Sono agarre-se tanto à imagética do filme original, com o repescar mesmo de alguns dos seus momentos mais icónicos, como a explosão de sangue no elevador, os corredores fantasmagóricos minados de personagens inesquecíveis (como as gémeas), e a célebre cena em que de machado em punho, Nicholson solta um “Here’s Johnny” enquanto espreita numa porta esquartejada à procura da sua esposa Wendy.
Tudo isso passa para este Doutor Sono, uma versão para o grande ecrã da sequela literária tardia que King lançou em setembro de 2013, mas tudo parece ser fruto de um universo paralelo e meramente evocativo pois em momento algum sentimos que são filmes “do mesmo campeonato”. Pensando bem, nem teriam de ser da mesma “liga”, até porque o legado deixado por Shining era demasiado voluptuoso para que qualquer sequela pudesse se colocar – mesmo em bicos de pés – ao seu lado.
Na verdade, Mike Flanagan constrói o seu filme como um pedaço de cinema agarrado aos códigos atuais da indústria, transformando Doutor Sono num melting pot quase anónimo, regido à vez entre três mundos e três autores: o dele como realizador, obrigado a seguir as fórmulas mercantis do cinema para massas; o de King como escritor; e o de Kubrick como o visionário que imprimiu um cunho extremamente pessoal na adaptação de Shining (que objetivamente foi o que irritou King).
O foco agora, pelo menos no primeiro terço, é Danny Torrance (Ewan McGregor), o pequeno rapaz do filme original – agora adulto – que sofre na pele diariamente o trauma que viveu no Overlook Hotel. Alcoólico, desempregado, sem-teto e sem rumo, Danny encontrou em truques mentais, na forma de caixas fechadas, uma maneira de encerrar os fantasmas do Overlook que ainda o atormentam, continuando a tratar o seu poder telepático de “brilhar” (shining) como um fardo, mas também como um dom para, numa nova profissão, servir de guia para pessoas que se aproximam da morte.
Quando uma jovem com semelhantes poderes cruza-se com Danny, este é obrigado a confrontar novamente o passado, especialmente porque pelo caminho descobre que um grupo de criaturas “iluminadas” que usam os seus poderes para sugar o “shining” dos outros, em busca de uma vida mais longa. A liderar este grupo encontramos Rose the Hat (Rebecca Ferguson), uma hippie carismática (que parece sair dos 4 Non Blondes) que serve aqui como a grande vilã, a líder de um bando de marginais “vampirescos” que se alimentam dos outros.

E nisto, até voltarmos ao que realmente interessa, que é o regresso ao Overlook Hotel, já se passaram duas horas de filme, que se distanciam um pouco do original, mas que introduzem uma série de novas personagens que no último terço vamos descobrir existirem apenas para encher a narrativa e criar novos trilhos que não vão a lugar algum. Sobressai ainda assim a pequena Abra (Kyliegh Curran), uma espécie de Danny à procura de orientação, mas que nos momentos de confrontação, aproxima-se mais da linguagem dos modelos heróicos do cinema de figuras com super-poderes (X-Men vem à cabeça) do que propriamente de uma psicologia da sobrenaturalidade do cinema de terror de Kubrick e até da obra de King.
Já no Overlook Hotel, finalmente, as coisas tornam-se confusas e com menor impacto no terror psicológico do que o exigido, até porque Flanagan não se cansa em ir buscar imagens do passado, fundir com as do presente, numa salganhada de estilos e tons – onde não faltam efeitos visuais facilmente datados – que descaracterizam tudo e tornam o desenlace previsível e pouco assustador.
O resultado é assim um filme descompensado, minado de personagens supérfulas que retiram foco às figuras centrais, Danny e o Overlook Hotel, tudo numa tentativa de expansão de um universo cuja melhor característica era a claustrofobia inerente que o espaço encerrado do Hotel nos transmitia. E se é verdade que Doutor Sono não é um desastre, é também certo que ele revela-se acima de tudo um objeto dispensável que não acrescenta absolutamente nada a esta mitologia.

Jorge Pereira

