Fosse o enredo, as personagens, as emoções e a temática tão inovadoras e arrojadas como a decisão de Ang Lee em prosseguir a filmar em “high frame rate” (120 frames por segundo contra os 24 habituais) e Gemini Man poderia ser um “game changer” na história do cinema.

Porém, um guião muito derivativo que aposta na velha fórmula de “O Fugitivo” (que ganhou novo fôlego na década de 90), onde não faltam emoções superficiais, conversas pseudo-filosóficas que na verdade não trazem qualquer dose complexa existencial, metafísica ou até poética, transformam este projeto numa espécie “Websummit para cinema“, mas sem grande retorno emocional.
Perceba-se que Will Smith anda por aqui a escapar a uma entidade para a qual trabalhou como assassino. Poderíamos até estar a falar do recente Polar, mas na verdade estamos mais perante um Enemy of State – Perigo Público (que Smith interpretou em 1998) que tem como grande rival a sua versão mais nova, ou seja, o mesmo Will Smith digitalmente alterado através de novas tecnologias de ponta que retiram anos de vida a atores reais (O Irlandês de Scorsese segue igual caminho, rejuvenescendo atores como Robert De Niro).
Essa luta entre o Will Smith atual e a sua versão mais nova é acompanhada por um espetáculo de ação bem coreografado, algo que Lee está habituado, não fosse ele o responsável por O Tigre e o Dragão. Por aqui não temos Yuen Woo-ping como “maestro” desta confrontação, mas Emmanuel Manzanares e Jeremy Marinas conseguem replicar muita da sensação que os filmes de ação de John Woo (e não Ang Lee), por exemplo, têm, de confrontos 1 para 1 repletos de intensidade, perseguições (a de mota é excecional) e onde até nem faltam pombos a esvoaçar por uma praça.
Espetáculo não falta por aqui e o high frame rate, o 4K e o 3D (este é dos poucos filmes que podemos dizer que o 3D realmente faz a diferença) trazem uma sensação única, hiperrealista. Mas será mesmo o hiperrealismo o futuro do cinema? A sensação que temos na verdade é que estamos parte num videojogo, parte num reallity show, parte num evento desportivo transmitido numa TV de ponta, e parte numa sala de cinema, criando um misto de emoções devido à “novidade” e à expansão do conceito de cinema como o conhecemos.
Mas a questão primordial por aqui – em termos de Cinema e “moralidade”- nem é propriamente as gímnicas artificiais referidas, mas a tal tecnologia de retirar anos de vida aos atores (De-aging). Se em S1mone de Andrew Nicol falávamos da criação de falsos atores, aqui corremos o risco de o cinema se apoderar desta tecnologia para não renovar gerações de atores, mas sim estender a duração das estrelas de ação até idades inimagináveis. Sim, ainda veremos Tom Cruise a correr aos 90 anos com aspeto de 20 anos, ou a Princesa Leia nos próximos 60 filmes da saga.

Mas se todas estas novidades (high frame rate, De-aging, etc) se tornarem realmente efetivas, o que resta neste filme quando olharmos para ele no futuro? O que resta é a tal história e interpretações já vistas e revistas. O enredo e o tema da clonagem, das grandes empresas que suplantam e agem como governos, tudo o que tem sido extremamente explorado no cinema e na TV, seja em sagas de clones como Orphan Black, seja em “avisos” futuristas de perigo recorrentes em Black Mirror, ou até no recente Anon que também tinha por lá Clive Owen a policiar num pós Relatório Minoritário.
E é por isso que o filme de Ang Lee não sai da esfera da curiosidade tecnológica. É interessante, produz espetáculo, mas no seu núcleo recicla tudo e todos ao serviço dessa mesma tecnologia. E é por isso que não sai da mera mediania…

Jorge Pereira

