Em meio a uma epopeia profissional e pessoal para se firmar no seu novo trabalho, atacando de assistente de cozinha, Sara, portadora de uma leve deficiência auditiva, inventa múltiplas formas de otimizar o seu tempo, entre elas usar os seus dentes para cortar as unhas de seu bebê. A cena desse momento de higiene, no filme La Hija de um Ladrón – um dos mais silenciosos da disputa pela Concha de Ouro de San Sebastián, em 2019 – é feita sem qualquer alarde por sua diretora, a estreante Belén Funes.
Ex-aluna da Escuela de San Antonio de Los Banos, de Cuba, a barcelonense sequer explora a ameaça de surdez da sua protagonista, pois nada que possa vir a arranhar a esfera do sensacionalismo ou do dramalhão parece interessar o seu olhar. E a atriz Greta Fernández faz jus a essa aposta da cineasta no que é “contido”, na arte rara do “fazer pequeno”.
Avesso à utilização de trilha sonora, de uma secura no limite da aspereza, capaz de ralentar (mas nunca de dispersar) a sua narrativa, Belén torna orgânico, tudo aquilo o que é aparentemente estranho, levando uma situação inusitada como esse “cuidado com um bebé” para o terreno do detalhe. Tampouco a angústia central da vida de Sara – o assédio por parte do seu pai, Manuel, disposto a tudo para se reaproximar dela – ocupa o epicentro do que vemos ao longo de 102 minutos de um rígido estudo de personagem feminina. Sara tem um irmãozinho rebelde para cuidar, tem um ex que não quer mais fazer amor com ela e tem o tal bebê de unhas compridas. Fora isso, existe a dureza de uma Espanha pobre, onde cada euro é ganho na dor e no suor. Sara tem vontade de potência para correr atrás do pão de cada dia. E é isso o que importa a Belén, no seu cinema de observação, distribuído por tomadas documentais que incorporam não-atores e transeuntes reais.
Não existem juízos cáusticos nas representações dos homens que a cercam, a começar pelo Manuel, vivido pelo pai de Greta Fernández na vida real. O personagem foi confiado a um dos maiores atores da Espanha nos dias de hoje, Eduard Fernández, laureado em San Sebastián, no ano 2016, com El Hombre de las Mil Caras. O sujeito truculento vivido por este tem o seu próprio modo de amar a filha e o filho ainda pequeno cuja guarda Sara deseja. O motivo parece ser a ausência de Manuel em tempos pretérito – isso não é dito de forma afirmativa. Mas pesa, sim, a falta de apoio financeiro dele. O mundo de Sara é um mundo de tostões, o que leva a moça a fazer toda a sorte de correrias para cumprir com as exigências do chef para quem trabalha. A disciplina é um ingrediente essencial à sua resiliência.

Existe uma alquimia de toques, olhares incongruentes e rusgas entre Manuel e Sara que os seus intérpretes constroem na covalência do respeito. Eduard e Greta vão diluindo ardores. Choro, só na hora essencial, pois tudo aqui precisa ser milimétrico. É uma investigação sobre uma forma de estar no mundo chamado Espanha… no mundo do Feminino. E essa investigação se dá por uma câmara que só se aproxima quando algo implode. Na explosão, ela se afasta e vê com distância… a distância exata para nos fazer compreender que há algo de solto naquelas engrenagens… as engrenagens dos laços de sangue.















