Valha-nos Maggie Smith e o seu jeito desbocado num filme demasiado morno e inconsequente

Numa era em que as séries viram filmes e os filmes se transformam em séries (spinoffs, prequelas, etc), Downton Abbey regressa pela porta grande (o Cinema) repleta de nostalgia, alegria e amizade entre patrões e empregados, de tal maneira que até um socialista é capaz de fazer uma pausa ideológica com um sorriso nos lábios, uma aristocrata lutar pelos desfavorecidos e contra si mesmo, e um ato de ciúme e agressividade ser encarado como uma prova definitiva de amor e romantismo. No meio de tantos sorrisos, uns mais amarelos que outros (pois muitas personagens mal abrem a boca), ecoam de forma estridente as tiradas de Maggie Smith, que continuam a ser o melhor prato que Downton Abbey tem para servir. Mas até a sua comparsa de birras e discussões cáusticas, Isobel Crawley (Penelope Wilton), está estranhamente amorfa a divagar pelo ecrã nesta adaptação ao cinema que arrisca muito pouco.
Sim, todo o espírito que percorreu a série melodramática de luxo sobre o sistema de classes confrontado com as mudanças dos tempos, que durante seis temporadas e agarrou espectadores, permanece, mas tratando-se de um trabalho cinematográfico repleto de unicidade era de esperar que tivesse algo mais para dizer que apenas e só mostrar trivialidades cómicas que cabiam em um par de episódios normais de uma qualquer temporada. É que nem a nível temático temos grande arrojo, embora uma pincelada tímida sobre a forma como os homossexuais eram vistos, e as mulheres com filhos fora do casamento são tratadas, servem para aquecer quem se dirige a uma sala à espera de algo mais interessante, divertido ou ligeiramente diferente do que vê no pequeno ecrã.

Julian Fellowes joga assim pelo seguro, cai no óbvio e responde a tudo com um sorriso e uma resolução fácil sem grandes contrariedades. Um mundo tremendamente simples, filmado solenemente e com mais meios técnicos e tons cinemáticos do que o habitual, mas essencialmente morno e que tal como a maioria dos filmes evento requisitam todas as personagens (veja-se Avengers) a aparecer, mesmo que elas não tenham nada para dizer.
E se em terras britânicas se fala do filme em termos de Brexit e se estabelece que antigamente é que todos eram felizes, por aqui apenas ficamos com a sensação que estamos perante uma peça de época que se quer ligeira, perfeita para entreter as massas, enquanto as aliena do que o fosso entre as classes realmente representava.

Jorge Pereira

