«Lost Holiday» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

E do verão de fim de ano no hemisfério sul em Tarde para Morir Joven, algo completamente diferente em termos de tom e temperatura para a mesma altura do ano, passando agora para a Competição Internacional de Longas Metragens do IndieLisboa 2019. 

Primeira longa-metragem dos irmãos Thomas e Michael Kerry Matthews, Lost Holiday é um filme-mistério que tenta fundir o mumblecore com uma ode à nova vaga do cinema francês, passando ali pelo Woody Allen de Manhattan Murder Mistery pelo meio, precisamente pelo modo como a obra usa um casal que vai, de uma forma atabalhoada, e por isso cómica, ligando todas as peças do puzzle por detrás de um desaparecimento. Aqui trata-se de uma socialite de Washington, que tal como a citada Paris Hilton, passou também por uns vídeos hardcore.

O foco aqui são os diálogos e um humor fora da fronteira, por vezes a escapar para o existencialismo depressivo na autoanálise que a protagonista faz de si mesma por exemplo (também aqui Woody Allen poderia ser chamado). Ao contrário de outros protagonistas do novo género do cinema independente americano, este par milenar, por muito divertido que seja no papel, não está isento de antipatias, sobretudo se houver um conflito geracional entre espectador e personagens. É um segmento de uma geração millenial em crise, convém dizer – mas aqui a crise deixa de ser financeira para subir um pouco na pirâmide de necessidades, uma crise existencialista que leva ao consumo de drogas (álcool, ácidos…) como escape à banalidade de uma existência que prometia melhor, sobretudo quando confrontada com o outro lado socialmente resolvido dos seus colegas de liceu que moram nos subúrbios.

A empatia nasce muito aqui da entrega dos atores aos papéis e a estes diálogos estilizados: Thomas Matthews, precisamente um dos irmãos realizadores e acima dele, e Kate Lyn Sheil (uma das “protegidas” de Alex Ross Perry, e aqui com a maior carga do filme por carregar, honestamente). O público mais atento reconhecerá também no papel secundário de interesse romântico latente, William Jackson Harper, o Chidi de The Good Place.

We live in New York” (“Nós vivemos em Nova Iorque”) aparenta ser a conclusão aqui chegada, como que um mantra antinormativo, para que o hedonismo citadino desta quadra consiga ser justificado. Pelo menos na curta duração de película, justifica-se o gasto no visionamento, e manter-se-á um olho atento a esta dupla no futuro.

 

André Gonçalves

 

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