Atualmente os vulgarmente denominados “filmes de super-heróis” representam uma importante fatia da industria cinematográfica, estando estes longe dos tempos marginais em que estavam reduzidos a uma espécie de segunda divisão da indústria. Estas adaptações de BD, grande parte sob o selo da Marvel, apresentam-se a nós cada vez mais pomposas em termos produtivos e mais ambiciosas em abandonar de vez a catalogação pelo qual são ainda discriminadas.

Capitão América: O Soldado do Inverno é mais um exemplo deste “case study” da Marvel, a transformação de algo inconsequente mas afetivamente ligado à nostálgica juventude de muitas gerações em cinema de “gente grande”.

Construído a partir da matriz pelo qual o estúdio requisitou nos últimos anos, uma formula vencedora por sinal, esta nova versão do herói criado por Joe Simon e Jack Kirby em 1941 para fins propagandistas da militarização norte-americana na Segunda Guerra Mundial funciona como uma fita vistosa contemplada por doses industriais de artifícios atraentes e primários, denunciando a sua dependência com o marketing envolvido.

Porém, é verdade que ao nosso Capitão calhou-lhe na “rifa” um argumento mais que razoável, por vezes buscando inspiração aos thrillers dos anos 70 nos quais Robert Redford (a sua presença não é vão) foi por inúmeras vezes protagonista. Para além disso, este é dos poucos filmes da Marvel que pode ser visto sem a conexão das outras sagas implantadas, iniciando-se de forma energética onde por momentos temos a sensação de assistir a alguma ação “old school” (corpo-a-corpo e muito tiroteio numa dinâmica sequência inicial).

Mas isso termina rápido, porque O Soldado do Inverno tem mais na agenda do que ser propositadamente mais um filme de ação para veteranos de Guerra. Aliás, temos espaço para tudo – um pouco de drama a “três pancadas” (a formula bigger than life), o humor de intervenção e corriqueiro sem brilho, e uma conspiração que se avizinhava complexa mas que afinal é mais uma eventual dominação do Mundo como toda aquela “carrada” de vilões da saga James Bond. Para dificultar, temos ainda uma câmara que não sabe se é “carne ou peixe”, ou seja, neste caso, ou é estática ou de ombro, o que corta o tom das inúmeras sequências de ação competentes.

Resumidamente, tudo parece um episódio alargado (mas do bom lote) do terrível spin-off televisivo S.H.I.E.L.D., com uma certa propaganda norte-americana à mistura (visto a personagem original ter essas origens). Capitão América: O Soldado do Inverno é o típico produto do estúdio, bem lubrificando (os atores cumprem as suas funções e a intriga desespera em procurar a sua espetacularidade) e visualmente deslumbrante para as vastas audiências. Porém, não figura entre os melhores da Marvel, mas também está longe dos piores. Para heróis nacionais sempre preferi o nosso Major Alvega.

Pontuação Geral
Hugo Gomes
Ricardo Du Toit
captain-america-the-winter-soldier-capitao-america-o-soldado-do-inverno-por-hugo-gomesSerá que a Marvel / Disney está a prender a ser adulta?