«Labor Day» (Um Segredo do Passado) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

 

O “flop” mais fascinante do último ano, e a proposta mais estranhamente adequada para esta quadra de São Valentim, tem o nome de um tradicional feriado norte-americano, e dedo de um filho da indústria de Hollywood, que parece estar decidido a incluir toda uma palete de cinzentos nos seus registos mais recentes.

Se em Young Adult, Jason Reitman (aí com a ajuda de Diablo Cody e de um desempenho memorável de Charlize Theron) lidava já com uma protagonista psicótica e auto-centrada, neste Labor Day a psicose volta a surgir, de novo sob a signo do amor.

Começamos por acompanhar Adele, uma dona de casa divorciada e deprimida (Kate Winslet, em mais uma variação bem sucedida do modelo que já apresentou em filmes como Little Children e Revolutionary Road) e o seu filho, nas suas compras do mês. Eis que entra em ação Frank Chambers (Josh Brolin, sempre impecável), um fugitivo da prisão, condenado por homicídio, que pede a Adele para o abrigar em casa. Do que se segue de imediato, o trailer já mostrou muito – embora se saliente que este mente ao espectador, colocando uma ou outra sequência fora de contexto, e que aquela canção de Birdy é totalmente desaquada a um filme bem mais silencioso e honesto. 

Há alturas em que a mão de Reitman nos pode parecer tão frágil como as mãos de Adele, mas se há um aspecto isolado a reter de Labor Day é de facto a sua honestidade perante a complexidade das relações humanas, certamente retendo aqui o ensinamento base do seu pai, o produtor lendário Ivan Reitman, que lhe terá dito que não há barómetro para a comédia ou para o drama, mas sim para a honestidade. E de facto, como o filme nos ensina, a verdade muitas vezes bem difícil de acreditar, e muitos de nós preferimos menosprezá-la ou ridicularizá-la. Não há aqui bons nem maus, e talvez por isso, esta adaptação do romance de Joyce Maynard possa ter caído muito mal numa América ainda dividida em duas secções opostas apenas. 

As revelações não são propriamente as mais bombásticas, o desenlace irritará muitos cínicos – que não conseguirão admitir que o filme eventualmente o merece, mas há aqui de facto uma vontade muito básica de contar uma história de amor improvável, nascida de situações traumáticas de parte a parte, executada de forma tão clássica e graciosa, que nos esquecemos que há ali questões um pouco incongruentes/demasiado romanceadas (não devia Frank tentar estar o máximo de tempo possível dentro de casa, por exemplo?). E a lágrima até pode teimar em cair no final. 

Um filme tão frágil e doce como a vida, resumindo e concluindo. Ou como uma tarte de pêssego, para ser mais prático. E fica-se a aguardar deste lado se Reitman cede a pressões superiores, ou se continuará a arriscar assim tanto – e a amadurecer ainda mais, no processo… 

 

O melhor: A honestidade do argumentista/realizador Reitman em retratar a fragilidade humana e o nascimento de um amor improvável. 

O pior: Algumas incongruências/romanceamentos que virão já do material base. 

 

André Gonçalves

 

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